18 HOMENS E UMA SENTENÇA

          Há alguns dias, dezoito homens, na surdina, (com apenas uma mulher presente, que, obviamente, foi a única a ser contra a medida), decidiram sobre o corpo de todas as brasileiras. Somos maioria na população, somos maioria nas universidades, mas, mesmo assim, um bando de deputados acha que sabe mais do que nós e o pior, acham que podem decidir sobre nossas vidas.

          A lei era para estender o tempo de licença maternidade no caso de mães que têm nenês prematuros, o que é óbvio, já que esse bebê necessita de muito mais cuidados do que um bebê que nasce de quarenta semanas, mas eles aproveitaram e legislaram também sobre o aborto, abolindo três situações em que o mesmo era permitido e fazendo o Brasil, que já era um dos países mais atrasados do mundo na questão, voltar à época das trevas.

         Você sabia que, segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) acontecem cerca de 500 mil estupros por ano no Brasil e metade deles são contra menores de 13 anos? Agora, imagine uma menina de 12 anos que, além de ter sido violentada com toda a brutalidade que esse ato traz, ainda ter de carregar no ventre o fruto desse crime. Pois foi isso o que esses deputados fizeram. Essa adolescente poderá ser presa se fizer um aborto. Não é um absurdo? Cadê os deputados para fazerem leis que deixem apodrecer na cadeia esses homens covardes que violentam meninas?

          Outra situação. Uma mulher descobre que traz no ventre um bebê sem cérebro. Não será nunca um indivíduo ou alguém acha que o cérebro vai aparecer do nada? Qualquer ser um pouquinho inteligente sabe que não, mas os senhores deputados devem achar que sim e, por isso, também decidiram que essa mãe será criminalizada se fizer o aborto.

          Por último, uma mulher vai ao médico e ele lhe diz que se ela insistir na gravidez, provavelmente morrerá. Ora, é só a vida dela, pensaram os tais deputados. Que diferença faz? Essa mulher deverá então ser uma abnegada e se deixar morrer porque se fizer o aborto poderá ficar até três anos na prisão.

       Por isso que diariamente, (isso mesmo, a cada dia) quatro mulheres morrem por complicação de abortos feitos em clínica clandestina. Não se trata de defender o aborto. Tenho certeza que nenhuma mulher gostaria de fazer um, mas essa é uma decisão que só cabe à mulher e a mais ninguém. O nosso corpo é nosso e só nós podemos decidir sobre ele. Não podemos delegar isso a ninguém, muito menos a qualquer homem que não tem a mínima ideia do que seja uma gravidez ou a maternidade.

          Até quando? Até quando vamos deixar que os senhores deputados, que diariamente estão nos noticiários acusados de corrupção, decidam a vida das mulheres? Na próxima eleição, pense nisso. Temos de ser maioria na vida pública como somos maioria no Brasil. Esse é um retrato justo. Há muitas mulheres honestas, capazes e aptas a exercer a vida pública. Vamos apoiá-las. Quem sabe assim, o feminicídio diminuirá, teremos salários iguais aos dos homens nas empresas e nenhum homem terá a ousadia de levantar a mão para bater em uma mulher ou nos proibir de usar determinada roupa ou até mesmo estudar. É hora de dar um basta à covardia escondida atrás da pretensa superioridade masculina.

                                                          

                                                                     São Paulo, 14/11/2017