A MÚSICA EM MIM

 

          Lembro-me das mãos. Duas gordas e lisas almofadinhas enfeitadas por unhas vermelhas pousadas sobre o piano. Dona Altair era muita gorda. A pessoa mais gorda que eu, aos seis ou sete anos, já havia conhecido. Tinha um rosto bonito e uma fala de voz rouca e calma. Jamais me repreendeu se a lição não fosse bem executada ou se a música ficasse completamente fora do ritmo. Pelo contrário, até incentivava.

          Eu gostava das aulas e talvez tivesse continuado por muitos anos se o dinheiro em casa não ficasse curto para que eu e minha irmã estudássemos piano. Tendo de escolher, meus pais optaram por pagar somente para minha irmã que estava bem mais adiantada do que eu. Não fiquei triste. Acho que entendi e não pensei mais no assunto.

    Na adolescência, tentei aprender violão sozinha com aquelas revistinhas de cifras que vendiam(ou será que ainda vendem?) nas bancas de jornal. Tirei uma única música, Ponteio de Edu Lobo, a qual toquei tanto que até eu mesma me cansei dela. De qualquer forma, não fui pra frente.

        Mais tarde, já podendo pagar, voltei para o piano e dessa vez na escola do famoso Zimbo Trio. Foi um período em que realmente aprendi a tocar, até dar a luz e meu filho decididamente não gostar de me ouvir praticando. Era eu sentar ao piano para ele começar a chorar. Desisti.

          Foram várias tentativas frustradas, até eu perceber que uma coisa é gostar de música. Outra, é ter talento para ser uma musicista. Não tenho talento algum, infelizmente. Entretanto, adoro cantar e não me importo se sou desafinada, se invento letra quando não me lembro direito da canção ou se alguém possa se incomodar com o meu canto. Cantar me faz imensamente bem e ainda adéquo as músicas escolhidas ao meu estado de espírito. Se estou triste, as músicas também estão. Se estou alegre, um samba vai muito bem.

        A música completa as lembranças de um momento e as canções avivam a memória quando são executadas. É como um gatilho pra gente recordar os melhores e os piores momentos por que já passamos. Mas até o pior momento fica melhor com uma música de fundo. Lembra um filme e nem parece que fomos nós que passamos por tudo aquilo.

        Quando ando na rua, seja em qualquer lugar do mundo, e vejo um músico de rua, sempre paro para escutar por alguns segundos que sejam. Depois, sempre dou algum dinheiro para aquela pessoa que deixou meu caminhar mais feliz.  Músicos não nascem assim a qualquer hora,  não se formam com muita facilidade, e sou imensamente grata por eles existirem. Não consigo imaginar uma vida sem notas musicais.

                                               São Paulo, 16/10/2018