A RENÚNCIA

 Etelvina me liga decidida e anuncia sem delongas:

        - Não vou mais me candidatar!!

        - Como assim, Etelvina? Estamos a poucos dias da eleição, seu rosto aparece todos os dias no horário eleitoral gratuito, você está à frente das pesquisas?! – eu pergunto completamente atordoada com a novidade.

        - Mesmo assim. Não quero mais. – ela responde sem se abalar.

        - Mas você podia pelo menos me dizer o porquê?

     - Ora, o porquê é óbvio. Eu sou mulher, sou negra, analfabeta e pobre. É desgraça demais, má sorte demais. Eu não posso levar esse azar para o planalto. Tenho responsabilidades como cidadã.

        - Mas, justamente, Etelvina!! É a sua chance como cidadã de mudar o Brasil. Pense em todas as minorias que você representa.

        -Por isso mesmo.

       Etelvina é meio difícil às vezes. É preciso uma baita paciência e falar com jeito para não levar uma panelada na cabeça. Talvez fosse apenas uma insegurança momentânea, um medo de ser eleita e não saber presidir o país. Eu podia imaginar que realmente era muita responsabilidade. Tentei outra abordagem.

    - Etelvina, você pode fazer um governo em que as minorias sejam privilegiadas. Acabar com o analfabetismo, tirar todo mundo que está abaixo da linha da miséria e também um programa que recupere mais rapidamente o papel da mulher e do negro na sociedade para que eles possam gozar dos mesmos direitos dos homens brancos.

         Etelvina me olha complacente.

        - Você não entendeu nada, né? – ela me pergunta como se eu fosse o ser mais idiota do universo.

        - Não entendeu o quê?

      - Uma sociedade precisa de minorias. É a lei dos opostos. Desde que o mundo é mundo para haver felicidade tem de haver desgraça. Eu represento a desgraça. Comigo no poder, ou a desgraça se espalha ou ela desaparece do país. Os dois caminhos são ruins. Não há solução. Por isso renuncio.

       Ainda tentei argumentar, dizer que felicidade era uma utopia, mas Etelvina estava decidida. Sua renúncia era para o bem do país que ela tanto ama. Talvez fosse melhor assim. Etelvina era mulher, negra, pobre, analfabeta e patriota. Era realmente muita minoria junta para terminar assim de uma hora pra outra. Dá até medo!

                                               São Paulo, 11/09/2018