À SOMBRA

          Da minha cadeira, à sombra, vejo corpos. Altos, baixos, roliços, esguios, firmes e flácidos. Corpos, há tanto tempo guardados, que anseiam por liberdade e caminham livres e felizes ao sol sem se preocupar com olhares indiscretos como os meus. Lado a lado, de mãos dadas, e até em fila indiana, de alguma forma, todos eles falam a linguagem muda dos corpos. Mas dizem, falam sem parar, gritam por atenção e, mesmo à distância, me atordoam com seu discurso carente.

             Não enxergo rostos, só corpos cobertos com minúsculos artefatos de panos coloridos se equilibrando para não revelar mais do que o permitido. É uma dança meticulosamente ensaiada e, por isso mesmo, de vez em quando, escapam, pulam ao vento e se expõem audaciosos esperando não por aplausos, mas por olhares indiscretos. Tão indiscretos quanto desejados.

           De lá pra cá, pernas negras, morenas, rosas e pálidas, enfim, se tornando iguais. Alguns corpos me causam inveja, bem poucos, é verdade, porém o necessário para me sentir culpada por um sentimento tão mesquinho, logo no primeiro dia do ano. Felizmente, a grande maioria só atiça o meu olhar comparativo e, sem nenhuma modéstia, até condescendente o suficiente para me orgulhar. Quem disse que orgulho e inveja são sentimentos opostos? Há muito, desisti de ordenar meus sentimentos. Eles são livres para se expor e se chocar com outros quando quiserem. Sou mera espectadora, à sombra.

              Nossa origem indígena nunca esteve tão presente. Corpos modernos são pintados. Uma pequena rosa atrás do pescoço, uma enorme árvore na barriga, pássaros aprisionados para sempre em braços musculosos. Há corpos que recitam poesia e seria fantástico se eles ficassem quietos o tempo necessário para que eu os pudesse ler tentando adivinhar porque o seu dono escolheu aquele poema entre tantos no universo. Creio que jamais seria capaz de tal façanha. Poesia me embriaga!

               Os corpos andam, correm, pulam e se jogam ávidos na água. Ávidos de quê? Não sei. E pouco me importa. Os corpos não são meus. Sou mera espectadora, à sombra. Na água, imaginam-se peixes ou algo que o valha, mas são apenas corpos desajeitados procurando uma maneira de renascer limpos, quase imaculados, prontos para outra temporada de aflições.

             Alguns se cobrem de areia. Desaparecem sob o bege infinito e só vejo a cabeça aflita gritando para se soltar enquanto outros corpos ao redor riem não sei bem de quê. Corpos têm humores que desconheço.

            Um pequeno corpo, completamente inexperiente, titubeia a cada passo. Experimenta, cai, levanta e começa de novo. Não há ainda arrependimentos, só determinação. Uma busca incansável pelo sucesso pífio de andar sozinho. Que pena que aquele corpo crescerá e cairá tantas e tantas vezes que um dia, as cicatrizes marcarão aquele corpo definitivamente. Sem qualquer piedade!

           Ao pôr do sol, com a luz incidindo contra, os corpos ficam ainda mais iguais. Um filme em preto e branco resistindo ao suor. Ainda à sombra, fecho os olhos. Há corpos demais, histórias demais e o ano novo está apenas começando.

                                           

                                                                      São Sebastião, 02/01/2018