AI, QUE DOR...

           Pronto-socorro de hospital não é propriamente um passeio no parque. Com exceção de hipocondríacos de plantão e de gente que adora um médico, imagino que todo mundo está naquela sala de espera com algum tipo de dor ou um forte incômodo. Não é, com certeza, um ambiente alegre e, por isso mesmo, eu fujo de um pronto-socorro mais ou menos como um rato foge do gato.

          Exagero? Claro que sim! O que seria da crônica se as cores não fossem vibrantes?

          Mas, como o meu pé insiste em querer aparecer, lá estava eu outra vez. Inexplicavelmente, não havia mais dor. Ela me visitara vinte e quatro horas todos os dias no último mês, igualzinho aquele tio afastado do interior que chega sem avisar e depois de um tempo, a gente nem entende por que ele ainda está ali, mas, sem mais nem menos, havia ido embora.

           Eu havia vencido a dor e já estava pronta a reivindicar meu diploma junto ao conselho de medicina, quando o dedinho resolveu inchar, inchar e se não estivesse sofrendo da vista, creio que ele estava até um pouco roxo. Pelo sim, pelo não, achei melhor me consultar com um “colega”, afinal, meu diploma ainda não havia sido sancionado.

          Cheguei por volta das duas da tarde e, como cidadã obediente, peguei minha senha número 45 e depois de umas duas horas de espera consegui ser chamada ao balcão para fazer minha ficha. A primeira pergunta da atendente é se eu tinha dor. Ao responder que não e vê-la marcando um x com caneta amarela, imediatamente me arrependi. Afinal, não sou uma novata. Dor é a chave da porta. Que porta? Ora, aquela porta de vidro por onde só entram médicos, enfermeiros e pacientes “com” dor.

           Como não dava para desdizer o que já havia sido dito, sentei resignada com a ficha na mão esperando que alguém chamasse por meu nome. As pessoas não paravam de chegar. Mas era estranho porque, reparando bem, com exceção de um ou dois, as pessoas mudavam as expressões faciais tão rápido como eu mudo... sei lá o que eu mudo tão rapidamente. Mas também, tudo você quer detalhes, caro leitor? Basta saber que aquelas pessoas naquele pronto-socorro, ora pareciam que estavam morrendo, ora pareciam que estavam gostando bastante do filme que passava na tevê.

           Todas estavam visivelmente com dor insuportável ou só estavam fingindo? A mocinha de vermelho mancava só de vez em quando ou era impressão minha? O senhor gordo da última cadeira estava rindo ou chorando? E a mulher com cara de poucos amigos, onde estava a dor quando foi tão mal-educada com a atendente?

         Então era assim o jogo. Pobre cronista ingênua! E ainda se acha muito esperta. Lembrei das minhas aulas de teatro no colégio, fechei os olhos como se só quisesse ficar quietinha em paz, esperei uns dez minutos e fui bem devagar até a atendente e lhe disse que agora meu pé doía, doía muito e estava tão inchado que praticamente não cabia mais no tênis. Ainda lembrei que estava ali há mais de três horas e que o dedinho estava ficando cada vez mais escuro.

           Imediatamente, ela chamou um enfermeiro, que chamou outro enfermeiro e outro que chamou o meu nome. Quando finalmente mostrei meu pé para o médico, ainda levei uma bronca. Como assim eu havia esperado tanto para procurar atendimento?

                                     

                                                                São Paulo, 21/08/2018