ALÉM DOS ÓCULOS

               Minha miopia não me permite que eu enxergue de longe sem óculos. Os óculos não me permitem que eu enxergue de perto. Só mais uma contradição da idade. E olha que são muitas. Entretanto, creio que a visão é a que mais me incomoda. Não sei como conciliar duas situações tão diferentes. E os óculos entram e saem do rosto o dia inteiro. Constantemente, os perco por aí, e então acontece o inevitável: eu não enxergo sem eles o suficiente para encontrá-los.

          Minha filha sugere que eu use aquela correntinha de metal presa aos óculos que minha avó usava. Sei que seria a melhor solução, afinal, ao baixar os óculos, eles ainda ficariam no meu pescoço. Mas não! Eu me recuso. É antigo demais.

        Busco um fosforescente cordão rosa e me acho moderna. Ridículo sentimento. É só a mesma correntinha de outro material. Descubro que, por mais em paz que se esteja com a vida, que o passado seja uma lembrança ótima, ainda assim a idade pesa. E pesa em coisas muito palpáveis como a visão ou os joelhos que doem se ficarem muito tempo dobrados, como em uma viagem de carro, por exemplo.

         No geral, somos tolerantes com pequenas falhas no motor, mesmo porque ninguém vem com um motor de reposição, mas a quilometragem avançada assusta. O que mais podemos esperar?

           Para a maioria dos indícios da idade há solução. Pintamos os cabelos brancos, nos matamos na academia para compensar os músculos perdidos, compramos roupas da moda levemente joviais, tomamos vitaminas e remédios milagrosos, e até uma plástica para compensar a gravidade é bem-vinda. Mesmo assim, não é suficiente. Há peças na máquina que estão desgastadas e para as quais não há substituição.

            Já há algum tempo tenho perdido amigos e conhecidos da mesma idade ou então, até um pouco mais novos. Inexplicavelmente, a máquina deles deu perda total sem qualquer aviso prévio. Perto disso, o que é uma visão ou um joelho defeituoso? Talvez sejam esses pequenos “defeitos” que vão nos preparando e mudando nossa perspectiva. Sou hoje muito mais tolerante em relação ao físico. E creio que, de alguma forma, isso é até libertador. Hoje, minha preocupação é com a saúde, em manter tudo engrenado o mais tempo possível. A beleza ficou em segundo plano.

           Então você quer saber por que não uso a tal correntinha para os óculos? Mas eu já disse que uso. Ela é cor-de-rosa fosforescente e moderna. Não precisa ser bonita, mas também não precisa ser antiga.

       Só para encerrar a crônica tenho de falar do sono. Para onde foram aquelas oito ou dez horas de sono que me faziam tão bem? Foram diminuindo, diminuindo e hoje bastam cinco. Essa é outra contradição. Um motor velho deveria ficar muito mais tempo descansando. Estou errada?

                                                                          São Paulo, 03/04/2018