ARMAS MATAM

        Tive um brilhante professor de direito penal que dizia com toda segurança que todo mundo é capaz de matar. Sua afirmação, baseada em uma vida inteira de experiência em processos criminais, deixava a classe inteira estarrecida. Nós, estudantes cheios de inocência, ouvíamos desconfiados e, claro, não acreditávamos. Ninguém ali se achava capaz de matar nem uma barata quanto mais um ser humano.

          Depois de cinco anos sentada no banco da faculdade nas famosas arcadas do Largo São Francisco, e depois de ver as situações mais diversas que levaram pessoas absolutamente normais a matar, tendíamos a acreditar que nosso professor podia estar certo. Pelo sim, pelo não, todos nós estávamos dispostos a seguir seu conselho à risca de nunca, em nenhuma hipótese, ter uma arma em casa.

         Quando vejo a discussão atual em que as armas de fogo são tão vulgarizadas como se não fossem perigosas, lembro-me do meu professor. Certa vez, ele nos levou para assistir a um julgamento em que atuava como advogado de defesa de um guarda-noturno que havia matado um menino. A história era triste. O guarda-noturno, como trabalhava a noite inteira, chegava em casa de manhã e queria dormir. Entretanto, uma turma de garotos que morava perto dele, queria brincar com um estilingue acertando pedrinhas que faziam barulho e não deixavam o guarda-noturno dormir. De nada adiantava ele pedir, pois, os garotos, sendo garotos, continuavam a brincadeira dia após dia.

          Cansado, com sono, certa vez, o guarda-noturno resolveu pôr medo nos meninos e saiu de casa com uma arma. Viu todos os garotos correndo para a direita e atirou sem olhar para a esquerda. E, sem querer, sem sequer ter mirado, acertou um garoto do grupo que não havia seguido pelo mesmo lado dos companheiros. Sem desejar, sem pretender, o guarda-noturno havia tirado a vida de uma criança. O que teria acontecido se ele não tivesse a arma em casa? Provavelmente, nada. Poderia ter gritado com o menino, corrido atrás, talvez até lhe dado alguns tapas, mas jamais teria tirado a sua vida.

          Esse caso marcou minha ideia sobre armas e compreendi que sim, todo mundo é capaz de matar, mesmo sem intenção. Poderia aqui contar muitos outros casos que povoaram meus anos de faculdade como o pai que atirou no próprio filho pensando que era um ladrão e tantos, tantos mais.

         Armas não levam a lugar nenhum, pelo menos, até nenhum lugar que valha a pena. Só torna uma sociedade mais agressiva, Em Londres nenhum guarda porta uma arma, apenas cassetete e é uma cidade com criminalidade baixíssima. Ao invés de estarmos perdendo tempo discutindo como facilitar a venda de armas, deveríamos estar discutindo como levar todas, exatamente todas as crianças e jovens para a escola. Garanto que em poucas décadas, nunca mais estaríamos falando em armas.

 

                                                           São Paulo, 26 de novembro de 2018,