AS "LIVES"

         

         Em tempos de pandemia, descobriu-se a “live”. Não passa um dia sequer, sem que alguém me convide para assistir uma “live”. Como se, só porque estou em casa, em isolamento social, estivesse de papo para o ar, louca para ver e ouvir qualquer coisa. Literalmente qualquer coisa.

        Vamos começar pelo começo: o que significa “live”? Nas minhas esforçadas aulas de inglês aprendi que era uma conjugação do verbo “to live” ou viver, na língua do Tio Sam, mas, de repente, do nada, mudou de significado. No mundo virtual significa “ao vivo”.

          O mais engraçado é que o “ao vivo” também fica gravado e quando você se desculpa por não ter podido assistir aquela “live” tão interessante, a pessoa lhe responde: entra no meu instagram e assiste, está gravado. Não há como escapar.

          De como enfiar um prego a fabricar queijo, há de tudo. “Live” para todo gosto. O que mais me assusta é como agora quintuplicou ao infinito( isso existe?) o número de artistas. Todo mundo canta, dança, sapateia, conta piada, enquanto os amigos e familiares batem palminha. A sala de estar de domingo foi transferida para a internet. E o que antes era restrito apenas àqueles que aplaudem e acham lindo qualquer coisa que a pessoa amada faz, agora, a desgraça é pública.

        Nunca vi tanto desafinado, tanta gente sem graça, tanto dançarino desconjuntado reunidos. As pessoas não têm qualquer constrangimento em se expor e os familiares ainda têm a coragem de apoiar. Acho que o isolamento levou embora o tal senso crítico. Deve ser um sintoma coletivo, ou melhor, uma falta de sintoma. Estão completamente assintomáticos.

         Instagram, YouTubeTwitterFacebookTikTok, quanto mais redes sociais, mais “lives”. Tem gente que, decididamente, acha moderno e imprescindível fazer “live”.

         Estou em casa sim, mas nunca trabalhei tanto. Junto com a “live”, descobrimos que o “home office” significa trabalho e mais trabalho em tempo integral. E que “home” significa que a conta de luz, o cafezinho no intervalo, as impressões das mil planilhas e todo o resto ficam por sua conta, na sua “home”. Mas esse é um assunto para outra crônica.

        Voltemos às “lives”. Não tenho tempo. Por favor, não me mandem nenhum convite por nenhum meio, por nenhuma rede. Não consigo mais inventar qualquer desculpa. Meu repertório acabou.

          Uma live tem de ser, no mínimo, interessante. Tem de me acrescentar algo. Tem de provocar minha inteligência ou minha sensibilidade. Também não pode me agredir esteticamente. Quem quer ver coisa feia? E, por favor, a não ser que você seja alguém com muito a dizer não pode passar de dez minutos.

        Chata? Não. Chatas são todas essas “lives” que inundam o meu isolamento.

                                                            São Paulo, 11/08/2020.