ATIRE A PRIMEIRA PEDRA...

 

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         As cadeias brasileiras superlotadas, degradantes, depósito de gente.

         Quantos ali, realmente deveriam estar ali?

         Não estou falando de assassinos, estupradores, ladrões profissionais, corruptos que roubam a saúde e a educação da sociedade brasileira. Mas, daquele ladrão de galinha, aquele que bastava uma pena de prestação de serviço à comunidade e uma boa raspança, como diria minha avó, para nunca mais cometer o erro.

     Quem nunca errou? Quem nunca ficou com algo que não lhe pertencia? Um troco a mais, uma cerveja cobrada a menos, um livro ou roupa emprestados e jamais devolvidos. São inúmeras as possibilidades.

        Conto sempre uma história real para ilustrar que ninguém está imune ao erro. Eu tinha uma tia que já morreu e que era a mais honesta e doce das criaturas. Em uma época de vagas magras, ou melhor, completamente esqueléticas, quando se festeja até as moedinhas mais insignificantes, aconteceu de uma prima, filha dessa tia, ter de levar alguns grãos de feijão para a escola. E cadê o feijão? Nenhum granzinho sequer no pote de mantimentos e tampouco algum real na carteira.

         Minha prima, 'cdf" de carteirinha desde pequena, começou a chorar só de pensar na bronca da professora. Minha tia, mãe dedicada, se sentindo a última das criaturas. E o drama familiar instalado.

       Depois de muito pensar o que fazer, sem um vizinho para pedir emprestado, minha tia tomou coragem e foi ao supermercado. Olhou o preço do feijão só por olhar ou apenas para constatar que, infelizmente, naquele dia, ele não era um brinde do supermercado. É verdade. Milagres são raros. Com as mãos tremendo, olhando assustada para os dois lados do corredor vazio, fez um pequeno furo no saco do feijão e tirou de lá meia dúzia de grãos. Apenas meia dúzia que foram parar no bolso do casaco. Disfarçou atrapalhada, respirou fundo e caminhando com as pernas bambas passou pelo segurança na saída com o coração em pulos.

         Já em casa, confessou o “crime” se sentindo a última das criaturas. Religiosa de carteirinha, pediu a Deus para perdoá-la.

         Se uma mãe é compelida a roubar por um trabalho de escola, o que dizer de um pai que vê seu filho chorar de fome por horas? As pessoas esquecem que fome mata. Que esse pai, provavelmente, não teve oportunidade de estudar, que está desempregado, que não tem ninguém que lhe estenda a mão. E depois do erro... para completar, advogados custam muito caro.

      Vamos olhar de novo para as nossas cadeias. Assunto complexo demais para apenas uma crônica, mas espaço suficiente para lembrar que só coisas ficam em depósitos. Pessoas merecem uma segunda chance.

 

                                                           São Paulo, 12 de fevereiro de 2019.