AUXÍLIO À FALTA DE VERGONHA

 

          Etelvina me olha séria e diz que precisa muito da minha ajuda. Quando essa baiana arretada me olha sério e solicita ajuda, eu realmente fico preocupada. Peço que me conte como posso ajudá-la.

          - Eu também quero auxílio-moradia. – Etelvina me diz de pronto.

          - Como assim, Etelvina?

         - Eu ouvi no rádio que o governo dá auxílio-moradia para juízes, políti-cos, gente rica que tem casa, então, eu que sou pobre, aposentada com um salário mínimo, e não tenho nem um quartinho pra chamar de meu, devo ter ainda mais direito ao tal auxílio-moradia. – Etelvina explicou com um sorriso vitorioso nos lábios, já imaginando um lugarzinho só seu.

      Eu respiro fundo. A lógica e o bom-senso de Etelvina sempre me surpreendem. Por outro lado, como explicar a ela, sem levar uma panela na cabeça, que a lógica do governo não tem qualquer bom-senso. E que o mundo, apesar de tão injusto, não é assim que funciona.

        Penso em milhões de pessoas que não têm onde morar ou então pagam um aluguel suado ou ainda, como Etelvina, vivem de favor em casa de terceiros ou no emprego, e penso que não há uma explicação razoável a dar. Eles deveriam ser o alvo primordial de um governo. Como esperar justiça social e diminuição da violência se uns têm tanto e outros não têm nada? Como fazer um governo entender que os impostos devem ser revertidos primeiro para aqueles que mais necessitam?

     Juízes, políticos, funcionários públicos de qualquer espécie, como o próprio nome já diz, prestam serviço ao público, à população, não podem ter regalias como aposentadoria integral, auxílio- moradia para viver na mesma cidade onde têm imóveis, verba de passagens aéreas para passear, assessores que não fazem nada e por aí vai.... Não é uma questão de legalidade. É falta de ética, de moral! Quando vamos exigir, de verdade, que tudo isso mude?

     Eu me abstraí e Etelvina continua me olhando, esperando por uma resposta. Como esperou a vida inteira para ter um cantinho só seu, um bom atendimento na saúde pública, uma boa escola que a ensinasse a ler e escrever e não a excluísse de tantas oportunidades por ser analfabeta. E eu não sei o que dizer.

     - Vou verificar como funciona e depois lhe falo, Etelvina. – menti, envergonhada demais para lhe contar a verdade.

       Só ganhei tempo para elaborar melhor o discurso da injustiça que uma pessoa simples e verdadeira como Etelvina não entenderia. Sou eu que preciso de auxílio, auxílio para explicar a falta de vergonha dos privilegiados que ainda vão a público, ou pior, entram na justiça para não perder suas regalias.

                                                                 São Paulo, 06/02/2018