BIC

          De vez em quando, fico surpresa pelo tanto de caneta que aparece em minha mesa. De onde será que elas vêm? Que pergunta estúpida!! Claro que eu sei de onde elas vêm. Vêm da mesa dos outros que eu roubo sem perceber.

        Um amigo, e porque é amigo, quer me tranquilizar e diz que isso é comum, que caneta e isqueiro são bens públicos. Quanto aos isqueiros, eu não sei porque não fumo, mas tenho certeza que canetas têm dono, mesmo que sejam daquelas bem comuns de corpo transparente daquela marca famosa. Você não sabe a que marca estou me referindo? Então, me desculpe, mas você não é desse mundo e está me atrapalhando um bocado para escrever essa crônica. Vou fingir que não lhe ouvi.

        Passam os dias, continuo roubando canetas, mas a ideia não sai da minha cabeça. Isso seria a solução para tudo. Se as coisas fossem tão baratas e tão abundantes que a propriedade não fosse importante. As pessoas dividiriam seus bens sem receio.

        É óbvio que se trata de uma utopia, mas em um mundo de tantas distopias, sonhar de vez em quando, faz muito bem. Alguém pode pensar que estou pregando comunismo, então é melhor explicar, não estou pregando nada. Só queria um mundo em que não houvesse uma única pessoa sem um teto para lhe dar abrigo, ou sem um prato de comida dia após dia, ou morrendo porque não pode ter assistência médica. Porque essas três coisas são básicas, imprescindíveis, absolutamente necessárias para a dignidade humana.

         Penso nos bilionários e nas empresas bilionárias espalhadas pelos quatro cantos do planeta e como eles poderiam mudar a face da humanidade, se quisessem. Infelizmente, não querem. Então eu pergunto: Por que alguém quer ajuntar tanto dinheiro se nem em uma vida inteira será capaz de gastar?

             Penso no pai imigrante que morreu afogado junto com a filha, os dois na mesma camiseta, só porque queria um lugar melhor para viver. Um desterrado, um desesperado.

             Uns com tanto, tanto... e outros sem nada.

         Que todas as árvores sejam frutíferas, que todos os terrenos vazios sejam hortas comunitárias, que as pessoas acordem para o dinheiro absurdo que detém, que os governos cuidem de seus cidadãos e que ninguém precise imigrar, que todos nós não nos importemos de dividir a caneta, o isqueiro, a comida e a solidariedade.

             Continuo sonhando acordada.

 

                                                                                  São Paulo, 29//06/2019