BISCOITO DE VENTO

 

        Apesar de já ter nove anos, ele ainda não conhecia. O amigo insistiu, queria que ele experimentasse, mas faltava vontade. Aquilo não era nem um pouco bonito, pelo contrário, era até um pouco disforme. Bege, sem cor. Tão feio quanto a embalagem que parecia antiga demais. Pensou em recusar, mas lembrou de sua mãe dizendo que convidado que não come de tudo é muito chato. Além disso, estavam na praia, estava com fome, e aquele parecia ser o alimento de praia preferido da família toda de seu amigo.

        Pôs na boca, desconfiado. O primeiro crec cheio de ar causou uma certa estranheza e não lhe lembrou nada conhecido. Era oco, surpreendentemente, oco. O barulho era inevitável, crec, e ficou com medo, crec, que as pessoas olhassem pra ele, crec, achando-o mal-educado, crec.

       Mais alguns crecs e o sabor começou a aparecer. Tinha um gosto assim, assim... difícil de explicar. Parecia gosto de tudo e gosto de nada.

      Aos poucos, se transformava em uma massa dentro da boca, que grudava nos dentes, mas que era bom, muito bom. Quanto mais a massa grudava no dente, mais crescia a vontade de comer um em seguida ao outro. Esqueceu a boa educação que sua mãe insistia em lhe ensinar e acabou com o pacote. A mãe do seu amigo sorriu e perguntou se ele havia gostado.

        Era óbvio que havia gostado, mas a questão não era essa, era outra. Como ele já tinha nove anos e jamais havia comido aquela delícia? Biscoito de vento. O quê? Também era conhecido como biscoito de vento por ser oco, mas era biscoito de polvilho. Ahhh... Se ele nem sabia o que era polvilho, não podia mesmo conhecer o seu biscoito!!

      Fez cara de entendido com a explicação, entretanto, assim que verificou que ninguém estava olhando foi correndo pedir ajuda ao mestre Google. E não era que o tal polvilho, feito de mandioca, era o mesmo ingrediente que se usava para fazer pão de queijo? Por que não disseram logo?

        Foram dias e mais dias na praia devorando biscoito e fazendo crecs. Anos depois, não consegue imaginar uma ida à praia sem biscoito de polvilho. Faz parte do cardápio e do gostinho de férias. Leve como o vento.

 

 

                                       São Paulo, 5 de fevereiro de 2018.