AS REVISTAS

 

 

          Sempre adorei revistas. Colecionava Tio Patinhas, Mickey, Turma da Mônica, fotonovelas e depois as revistas femininas, de decoração, de viagem e de atualidades. Sem falar nas sempre ótimas entrevistas da Playboy. Essas revistas tiveram grande influência na minha formação e, provavelmente, foram as responsáveis por, mais tarde, escolher jornalismo como profissão. Os jornais nunca me atraíram como as revistas. Não me imaginava correndo da redação porque um prédio pegou fogo ou alguém importante morreu.

          As revistas semanais ou mensais tinham o tempo da pesquisa, da reflexão, da entrevista calma, da reportagem abrangente. Talvez até hoje elas ainda permanecessem encantadas para mim, se, algum dia, eu não tivesse me tornado professora de jornalismo. As revistas passaram a ser a matéria-prima da minha aula e, portanto, foram objetos de anos de análise junto com os alunos, anos de desconstrução textual e jornalística para mostrar os erros e como não cometê-los. É mais ou menos como alguém muito apaixonado por outra pessoa, que, diariamente, sai em busca de seus defeitos. Não há amor que resista. E assim foi com as revistas.

       Cancelei todas as minhas assinaturas, passei a comprar em banca cada vez mais raramente até que elas desapareceram do meu radar. Afinal, eu achava que tudo que elas traziam, eu já havia lido antes na internet.

        Na semana passada, ao ler (também na internet) que um determinado candidato, nem um pouco simpático à liberdade de imprensa, queria tirar uma revista de banca, corri a comprá-la. Se ele estava tão preocupado era porque a revista devia ter publicado algo de muito ruim sobre ele. Fiquei decepcionada. Não havia nada além do que o Brasil inteiro já sabia. O candidato é um homem ignorante, agressivo e conseguiu enganar a ex-esposa no processo de separação para tirar-lhe o direito a bens do casal.

           Apesar da decepção com a matéria, fiquei maravilhada com os textos longos e com a redescoberta de ter aquele objeto de papel na minha mão. Como era bom não ter de espremer os olhos para ler algo no pequeno celular ou aguentar o peso do notebook nas pernas ou ainda ter de ficar sentada na escrivaninha maltratando coluna e joelhos. A revista era do tamanho e do peso do meu conforto e podia ser lida deitada, sentada no sofá e até no banheiro. De novo, como em um casamento que algum dia acabou, a gente percebe que o ex ou a ex ainda guarda em si algumas coisas que nos fizeram apaixonar um dia.

          Há prazeres que esquecemos e que nos faziam feliz. Vou voltar a comprar revistas. Nada de assinatura. Vou à banca olhar as novidades, ver as dezenas de capas, escolher devagar como um doce na doceria. Talvez algumas reportagens me decepcionem, mas, no geral, sei que textos mais longos e melhor apurados vão me causar alegria, além de ter uma outra fonte de notícia que não seja a superficial e manipulável internet.

                                                           São Paulo, 01/10/2018