A PERDEDORA FUI EU

                                                              

          Durante semanas, estudei, pesquisei, vi vídeos e dividi tudo isso com muitas pessoas conhecidas. Aos poucos, fui percebendo que, por mais horríveis que fossem as declarações, atos e folha corrida do Bolsonaro, nada fazia com que as pessoas mudassem de opinião. Primeiro, pensei que fosse o medo do PT voltar ao poder, mas, como assim? Afinal, existiam tantas outras opções que não eram nem um, nem outro?

           Entretanto, aos poucos, fui me dando conta de que as pessoas não mudavam seu voto porque, no fundo, se identificavam com o candidato. Escondidos sob o guarda-chuva do antipetismo, estavam homens e mulheres de meia idade, brancos e com posses, além de seus jovens filhos, que durante a vida toda fizeram piadinha de negro, de mulher, de “viado”. Pessoas que acham que são realmente superiores. Pessoas que vão à igreja aos domingos, têm discurso de boazinhas, mas acham que sua empregada doméstica “não é do mesmo nível” e se incomodam profundamente quando encontram alguma delas no elevador social. Pessoas que morrem de medo de ter um filho gay ou uma nora negra.

       Minha querida Etelvina, empregada doméstica em casa de minha mãe, era mulata bem escura e não suportava negro. Era, surpreendentemente, racista. porque, durante a vida inteira, ela foi criada ouvindo que negro era inferior. Ela não queria ser negra, se envergonhava de ser negra e alisava o cabelo com Henê Maru, do mesmo jeito que hoje muitas mulheres fazem chapinha, alisamento e tentam esconder sua origem negra. Vi várias dessas mulheres declararem seu voto em quem lhes menospreza. Por quê? Porque durante a vida inteira, foram criadas ouvindo que negro era inferior.

          Foi esse mesmo sentimento de inferioridade, de anormalidade, tantas vezes repetido por uma sociedade homofóbica que fez com que gays votassem em Bolsonaro, mesmo correndo o risco de nunca mais poderem andar abraçados na rua ou dar um beijo em público. Ou, pior, começarem a ser hostilizados por homofóbicos, sem mais nem menos, como já aconteceu há duas semanas no metrô de São Paulo, apoiados pelo discurso horrível de um possível presidente que deveria ter o compromisso de governar para todos.

       Faço aqui a mea culpa. Também sou mulher branca de meia idade, educada nessa cultura preconceituosa, mas, quando tomei consciência, optei por fazer um policiamento o tempo todo de mim mesma para não escorregar nessa maldade chamada preconceito. É uma luta difícil, diária, constante. Porém, quanto às eleições, foi fácil. Foi só escolher um candidato que não odiasse as minorias. Afinal, não é uma questão politica! É uma questão humana.

          Foram semanas em que eu me perguntei inúmeras vezes o que estava acontecendo. O que havia acontecido com o bom-senso e a humanidade das pessoas? Como elas podiam apoiar um monstro sem valores? Descobrir que seus eleitores eram, em alguma medida, o retrato do político, foi muito triste. Ver pessoas que eu conheço pondo para fora seu racismo, sua homofobia e seu preconceito sem qualquer culpa, foi, para mim, o pior resultado dessa eleição.

        Eu perdi. Perdi totalmente o respeito por quem não tem respeito pelo ser humano seja de qual cor, credo, gênero, sexualidade, ou classe social. Eu perdi!

 

                                                    São Paulo, 08/10/2018