CASAMENTO REAL

         Claro que fui convidada. Eu e a família real britânica temos muito mais em comum do que poderia supor um reles mortal. Mas não fui. Achei que deveria ser muito cansativo e tinha que fazer umas coisinhas aqui no Brasil. Tipo fazer a barra de uma calça, arrumar umas gavetas, coisas importantes, sabe...

          E lá fui eu, no intervalo dos meus afazeres, assistir pela tevê, ao casamento real. A ideia era ver só um pedacinho. Estava completamente indignada. Como assim uma feminista, ativista, deixa sua carreira, abandona seus perfis na rede social, se converte a uma nova religião e muda de cidadania só pra se casar?? Ainda se fosse com o príncipe número 1, mas era com o 2 e com chances mínimas dele um dia se tornar rei e ela, uma  rainha.

           A igreja, eu tinha de reconhecer, era linda. Os jornalistas diziam que era de São Jorge e eu não conseguia ver nada parecido com o nosso São Jorge que vai ao jogo do Corinthians e mora na cozinha de tanta gente pelo Brasil, montado em seu cavalo branco como se fosse a qualquer momento pular as panelas e os legumes. As imagens mostravam a capela real com lugar exclusivo para o coro com pequenos abajures, o teto em forma de abóbada, incrivelmente trabalhado, aqueles vitrais... está bem. Qualquer louca gostaria de se casar em um local assim.

        O vestido da noiva foi uma surpresa muito bem guardada. Eu estava imaginando um modelo cheio de salamaleques, mas estava sóbrio e elegante. Claro, que a estilista inglesa, que era a nova estrela da casa Givenchy, havia caprichado. Qual outra vitrine mundial tinha esse tamanho? A tiara antiga usada por Meghan e que pertenceu à rainha Mary era um deslumbre. Lembrei-me de todas as minhas fantasias infantis de princesa e de como eu adorava usar uma coroa. Quanto mais brilho houvesse, melhor!! Eu andava pela casa com a cabeça erguida, segurando a coroa como se fosse uma joia de um milhão de dólares e fosse ela a razão da minha realeza.

           Casamento sem música não existe e quando parecia que o coral dos meninos era tudo que iríamos ouvir, eis que depois do “sim” mais aguardado, surge aquele maravilhoso coral gospel cantando Stand by me. Sim, tudo dará certo na vida “desde que você fique comigo” dizia a letra da canção. E por que não acreditar nisso? São dois jovens, apaixonados, quebrando tantas normas de uma das monarquias mais antigas do mundo só para ficarem juntos. Havia uma chance. E afinal, a princesa Meghan teria muito mais força de dentro da monarquia do que de fora para fazer valer suas antigas convicções.

          Quando a carruagem, ainda ao som do coral, atravessava a multidão alegre que balançava suas bandeirinhas coloridas, enquanto os noivos distribuíam sorrisos, eu entendi. Era tudo culpa do Disney e de todas as suas princesas que aprendemos a amar ao longo da vida. Era impossível não se emocionar. Amanhã talvez fosse outro dia e, como em qualquer casamento, sem nenhuma garantia de que o ‘foram felizes para sempre” fosse realmente acontecer, mas hoje, ao som de Stand by me, eu também queria ficar ali, vendo e ouvindo o sonho de criança ser tão real.

          De vez em quando, as críticas podem ser esquecidas e se deixar levar. Da próxima vez que for convidada, estarei na primeira fila.

                                               São Paulo, 22/05/2018