CELIBATO

         Eu e minha irmã estudamos em colégio de freiras, enquanto meus irmãos estudaram em colégio de padres. Meus filhos estudaram em colégio católico e eu trabalhei, durante anos, em uma instituição católica. Tinha uma tia muito próxima que era freira e a família de minha mãe sempre foi religiosa de carteirinha, do tipo missa todo domingo e reza do terço a qualquer pretexto. Isso claro, não faz de mim uma entendida, mas uma observadora. Aliás, um cronista é só isso: um observador do detalhe.

            A longa contextualização que fiz acima da presença católica em minha vida é só para poder dizer que tenho uma pena enorme de freiras e padres. Acho o dia a dia, o mês a mês, o ano a ano de um religioso muito triste. Minha tia freira costumava dizer que era casada com Deus. Mentira, não era casada com ninguém. Deus é ótimo, mas não é um companheiro que divide as compras, vai ao cinema com você, escuta seus problemas e lhe diz o que fazer em um volume audível. Por mais fé que se tenha, (e olha que eu tenho muita!) falta ainda a concretude de um ser humano para dividir a vida, dar um abraço quando tudo dá errado e um longo beijo na boca para se sentir, verdadeiramente, o que é o amor.

         Então chegamos em pleno século XXI e, apesar do meu celular ser capaz de ler a minha digital para ser desbloqueado, a igreja católica ainda mantém o celibato da época em que a comunicação dos jesuítas no Brasil Colônia era feita por longas cartas que viajavam de caravelas e levavam dias para chegar à Europa.

         Quando isso vai mudar? Aprendemos na mesma escola católica que o celibato foi instituído com medo de que os bens da igreja se perdessem. Creio que o risco agora é muito maior. A religião católica vai acabar se não houver uma mudança e bem rápido. Os melhores religiosos que conheci, recentemente, o deixaram de ser porque não há mais sentido nessa regra absurda. Todos os anos, o número de vocações diminui e, na grande maioria, só jovens muito pobres vão para o seminário porque veem ali uma forma de poder estudar e sobreviver dignamente. Por que alguém não pode ser casado e ainda assim dedicar sua vida a continuar a obra católica? O casamento, ou qualquer tipo de relacionamento, é permitido na maioria das religiões e elas não tiveram um desfalque por causa disso. Deus mandou amar, não mandou?

       Da mesma forma, a discussão sobre gênero se intensifica no mundo inteiro e a igreja católica ainda não permite que mulheres rezem missa ou, em ordens masculinas, que as mulheres ocupem cargos de poder. O homem pode ser o maior incompetente mas, ainda assim, ele será escolhido para o cargo de chefia em detrimento de uma mulher muito mais capaz só pelo fato dela ser mulher.

        É triste! Acho que os valores que a instituição católica me deu, fizeram de mim uma pessoa melhor, mas, se uma organização religiosa não consegue evoluir e andar no mesmo passo da sociedade à qual ela diz servir, então há algo de muito errado na missão. O Deus que acolhe a todos, igualmente, é o Deus que eu aprendi a acreditar. Ele, com certeza, não aprova uma regra do tempo de quando se queimavam infiéis em fogueiras(aliás, nunca aprovou!) ou que permite que as pessoas que queiram servir o outro sejam infelizes apenas para manter o ouro, esse vil metal.

                                                                       São Paulo, 19/12/2017