CIMENTO

 

          Algo que sempre me impressionou foi ver um terreno vazio e, de repente, do nada, uma parede surgir e depois outra e mais outra, até que uma casa começa a ganhar forma e aquela terra nua muda de rosto, recebe cor e se torna o lar de alguém. Eu sempre me perguntei como que um trabalhador da construção civil que, via de regra, não teve a oportunidade de prosseguir nos estudos, conseguia fazer aquela maravilha e eu não saberia nem ao menos por onde começar. Cada macaco no seu galho, diria minha mãe. Mas eu nunca aceitei muito bem essa história de não poder pular em alguns galhos alheios.

          Desde que o homem surgiu na face da Terra, ele sempre soube conseguir um lugar para viver e comida para se alimentar. Não havia como terceirizar. Cada um que cuidasse de si ou morresse de fome ou frio.

          O tempo passou e tarefas fundamentais foram deixadas de lado. Há gente que não consegue cozinhar nem um ovo e depende de uma outra pessoa para tudo.  Eu sou do tipo que frito ovo, mas tenho um bloqueio com máquinas. Elas me dão uma preguiça danada e demoro muito a criar coragem para buscar entendê-las.  Mas não estou falando de coisas complicadas.  Há coisas que são básicas e que todo mundo deveria saber fazer como o próprio pão e a própria casa.

          Lembro da sensação de autonomia e o orgulho que tive, olhando para o meu primeiro pão. O mundo poderia sofrer uma hecatombe, um alienígena agressor poderia descer do céu, as padarias poderiam ser interditadas ou simplesmente os padeiros entrarem em greve. Eu não morreria de fome. Eu sabia fazer pão.

       Há algum tempo aprendi a mexer com cimento. Uma mistura entre areia, cimento e água que magicamente fecha buracos, faz pisos, levanta paredes. Não. Eu ainda não sei levantar uma parede, mas não há qualquer buraco ou imperfeição que possa ser corrigida com cimento que eu ainda não tenha arrumado, toda convencida pela minha independência.

          Ando pensando em construir algo, uma obra bem pequena para começar. Quiçá uma casinha de cachorro ou apenas um lugar como uma bancada para cuidar de minhas plantas. Só de pensar que não vou precisar de um pedreiro já fico emocionada. Talvez fique um pouco torto, mas posso fingir que é influência de Gaudí. Daqui a duzentos anos poderá até haver quem olhe e ache que se trata de uma obra de arte.

          Não importa. Estou a caminho. Haverá um dia que serei como meus antecedentes, terei minha caverna de cimento e minha caça, ou melhor, meu pão, mesmo que seja assado em um super forno e não na romântica fogueira, tudo feito pelas minhas mãos, um pedaço genial do nosso corpo.

 

                                                                São Paulo, 26/03/2019