CLARICE

 

        As crônicas de Clarice moram ao lado de minha cama. Não me canso de lê-las e relê-las. A cada leitura descubro algo novo que eu não havia percebido antes. É como um baú com tanta coisa guardada que não se consegue ver o fundo. Depois de uma camada de surpresas, mais uma e mais uma...

         Chaya Pinkhasovna Lispector não era um ser comum, desde sempre. A pequena ucraniana que chegou ao Brasil junto com sua família, fugindo da perseguição aos judeus, cresceu em terra brasilis e dizia não ter qualquer ligação com seu país de nascimento. Era brasileira e assumia mais, era pernambucana, estado nordestino onde viveu sua infância e adolescência.

      Mergulhar em Clarice é mergulharmos em nós mesmos. A grande marca de sua obra era sua percepção nítida, quase palpável de nossos dramas interiores, de nossas dúvidas mais angustiantes, de nossos medos mais escondidos. Clarice escrevia querendo se entender e nos ajudava a nos entender também. Se bem que acredito que há uma Clarice subterrânea que nem a própria chegou a decifrar. Foram tentativas infindas.

      Da mesma forma, quero aqui descrever Clarice, mas não consigo. Minhas definições não a definem. Nem chegam perto. Então creio que é melhor deixar que ela mesma fale.

     “Eu sou sim. Eu sou não. Aguardo com paciência a harmonia dos contrários. Serei um eu, o que significa também vós.”

          E se você ainda não entendeu é porque...

        “Em algum ponto deve estar havendo um erro: é que ao escrever, por mais que me expresse, tenho a sensação de nunca na verdade ter-me expressado. A tal ponto isso me desola que me parece, agora, ter passado a me concentrar mais em querer me expressar do que na expressão ela mesma. Sei que é uma mania muito passageira. Mas, de qualquer forma, tentarei o seguinte: uma espécie de silêncio. Mesmo continuando a escrever, usarei o silêncio. E, se houver o que se chama de expressão, que se exale do que sou. Não vai mais ser:”Eu me exprimo, logo sou”. Será: “Eu sou;logo sou.”

        Sim. Eu sei. Clarice é tudo isso e muito, muito mais. Ela mesma nos advertiu:

           “Minha aparência me engana.”

 

                                                           São Paulo, 11/12/2018