COISAS PEQUENAS

         Coisas pequenas. Um sorriso inesperado em um rosto rabugento. O telefonema de um amigo relapso, há muito aguardado. O sorvete de crocante derretendo na boca.

         Coisas que acontecem todos os dias e não enxergamos.

        Felicidade ingênua de finalmente encontrar a chave do carro ou da casa embaixo da almofada do sofá. Ou o botão caído e tão diferente daquela camisa preferida.

       Não são eventos importantes de acordo com o senso comum. Ledo engano. São essenciais.

      Não é todo dia que se obtém a promoção ou o emprego dos sonhos. Muito menos, se encontra um grande amor ou se tem um filho. A formatura requer anos de estudo e acontece apenas uma vez, na melhor das hipóteses, duas ou três. São conquistas desejadas, mas raras, e a vida é bem mais do que apenas alguns momentos de êxtase.

         O dia a dia também reclama por encantamento. Um café com os colegas no meio do tarde para falar do chefe. Uma reunião de horas que chega ao fim. Um filho que demonstra atenção. Uma comida gostosa ou um sol brilhante para aquecer a alma. Até mesmo uma cama limpinha e cheirosa para acalentar nosso sono. São acontecimentos comuns ou encantados dependendo do olhar.

         Há muitas maneiras de viver a vida. Mas as lentes com as quais a vemos determina sua cor. Há períodos que nossas lentes são tão escuras que a amargura ganha materialidade, vira um guarda-chuva enorme, incômodo, que insiste em ficar aberto e encobrir o céu. Feliz o momento em que, num descuido, o vento quebra suas varetas e o leva para bem longe.

       São as lentes claras, límpidas que nos permitem ver. Não é preciso ser Pollyana ou brincar de contente, mas assumir uma postura mais generosa em relação aos outros, aos fatos e a si próprio. Minha sábia mãe costumava dizer que pra tudo há solução, só não há solução para a morte. Ela estava absolutamente certa. Os problemas mais escabrosos, com o tempo, se acertam, de um jeito ou de outro. Da mesma maneira que não há felicidade, também não há infelicidade eterna. Mas você pode continuar reclamando, reclamando e perdendo as pequenas coisas que são de graça, tijolos comuns do dia a dia que constroem o bem viver.

        Apenas coisas pequenas.

 

                                               São Paulo, 15/01/2019