COMPLICADOS

 

          Há pessoas que se afogam até em poça d’água. A gente quer ajudar, estende o braço, insiste, mas até para aceitar ajuda são complicadas. Esperam a água chegar na boca e, ainda assim, dão de valente.

          Às vezes, a vontade é deixar o outro se afogar. Um pouco de água no pulmão talvez faça algum bem. Pode ser até que a pessoa resolva respirar direito e da respiração, como por milagre, o resto venha por inércia. Ledo engano. Como diz o ditado: o pior cego é aquele que não quer ver.

           A pessoa vai se afogar. E o pior é que ainda vai caber a você, resolver a meleca. Gosto dessa palavra: meleca. Não tem nada parecido, nem tão ilustrativo, na língua portuguesa. Mas voltemos ao afogamento. Se o ser apenas se afogasse, e você nem visse... Ok. Dava pra viver com isso. Mas você está vendo. Por mais que o ser seja um péssimo nadador, você até que vê nele outras qualidades e não dá pra deixá-lo se afogar.

         Sei. Eu sei. Você prometeu que a última vez realmente seria a última. Mas quem vamos enganar? Você e eu sabíamos que não era. Ninguém aprende a nadar se não quiser aprender. Se acha que o nado é chato, que está acima dessas bobagens e que salva-vida tem obrigação de estar lá, na cadeirinha alta, vigiando para prestar socorro assim que a pessoa precise. Eu vi. Dessa vez, o coração quase não reage a uma respiração boca a boca, mas você não desistiu, como sempre, e depois, nem um obrigado.

       Dá raiva. Eu sei que dá. Concordo que nem de shorts vermelho e camiseta amarela você se parece com um salva-vida, mas o afogado não tem só nado ruim, também sofre da vista e seu bom-senso é tão crível como papai-noel. É tudo isso junto que o leva pra poça d’água. Se você tivesse juízo saía correndo. Mas eu também estava lá quando lhe enfiaram um monte de culpa nessa sua cabecinha. E quem disse que água mole em pedra dura tanto bate até que fura, não conheceu você. Sim. Eu ouvi você alertando uma, duas, vinte, mil vezes. Talvez sua água seja tão mole que nunca vai conseguir furar uma cabeça dura.

        Alguém diz que é destino, outros afirmam que só pode ser carma. Eu não sei o que é. Por mais que eu pense, não vejo resposta e muito menos solução. Há tantas poças d’água nos caminhos. Não há como fugir delas e nem entregar um mapa detalhado ou talvez um GPS de última geração. Cada um tem que desenhar seu próprio mapa.

        Respire fundo. Vá tomar um refresco ou um café bem quente. O que você mais gostar. Você merece. Não se esqueça disso: você merece.

 

                                                                       São Paulo, 31 /07/2018