CONCERTO NOTURNO

          Todas as noites, ele repetia o mesmo ritual. Apagava todas as luzes da casa, se agasalhava bem, enchia uma enorme xícara com um fumegante chá de hibisco e sentava-se na espreguiçadeira bem no meio do quintal.

        Nos primeiros minutos nada acontecia. Era preciso deixar os olhos se acostumarem à escuridão e permitir que a alma vagasse solta, livre. Aos poucos, o barulho ia indo embora e o silêncio ocupava absoluto todos os espaços. Uma massa compacta de só silêncio que envolvia todas as partes de seu corpo e mais além.

        No céu, o emaranhado de estrelas de todos os tamanhos e de todos os brilhos ia se mostrando majestoso, mas sem qualquer pressa. Cada estrela aparecia devagar, respondendo a uma chamada imaginária e sem fim.

        Só então, quando a respiração se tornava lenta e valiosa, os seus olhos buscavam, no pequeno espaço completamente escuro de entre as árvores, pelo espetáculo. Uma após outra, as minúsculas luzes acendiam aqui e ali. Luzes que voavam para dizer. Alguns os chamavam de vaga-lumes, mas ele sempre preferiu pirilampos. Mais nobre, vindo do grego, digno de seres que brilham,

      Como explicar que um pequeno ser alado se acende apenas para se comunicar e achar sua parceira. Quantas vezes ele também gostaria de ter se acendido para poder dizer o quanto a amava. Sem luz própria, ela jamais conseguiu enxergá-lo. Seu amor era opaco, escondido entre tantas outras luzes mais ofuscantes.

         Às vezes, ele também se imaginava um maestro regendo um concerto e erguia suas frágeis mãos no escuro em busca das pequenas luzes. Ria sozinho de seu desajeitado concerto. Não havia ninguém para ver. Ninguém para julgar. Devia ter lhe enviado pirilampos, milhares deles e talvez ela também se encantasse. Nem sempre o caminho é fácil de achar.

        Um pirilampo abandona o bailado e vem lhe dar um rasante de boa-noite. Pousa sobre a espreguiçadeira, bem perto de suas pernas cansadas e brilha em pequenos intervalos. Quisera ter alguém para mostrar, mas ele não enviou os pirilampos. Esperou  sem lutar que algum milagre a trouxesse para o seu jardim. O pirilampo parado está ali para lhe dizer o que ele, no fundo, sempre soube.

         A orquestra se desfaz. Os voos tornam-se mais longos e se perdem atrás das árvores. O pequeno pirilampo da espreguiçadeira se acende forte e por mais tempo, também ele lamenta, mas outros voos o aguardam. E bate asas para longe, assim como ele deixou que ela fizesse.

                                                                                                           São Paulo, 20/02/2018