CRÔNICA DA SEMANA

LÁ NO PURGATÓRIO

 

        Sempre imaginei o purgatório como um andar intermediário no elevador que nos leva para o céu ou para o inferno. Cresci ouvindo que fulano iria sofrer muito no purgatório quando morresse e eu ficava imaginando, desde criança, o que podia acontecer de tão ruim nesse tal de purgatório.

             Um andar inteiro para purgar os pecados. Vou ao dicionário. Nunca soube com certeza o que significava purgar. Não é uma palavra que a gente usa assim como quem vai a uma festa. Ir ao purgatório purgar os pecados, definitivamente, não devia ser divertido como uma festa.

          “Tornar-se puro, livrar-se das impurezas, pagar os pecados”. Certo. Entendi. Mas como é que se paga pecados?

         Não era o inferno, então não havia fogo para me preocupar. Mas, provavelmente, as pessoas ficavam presas a um tronco como os escravos e apanhavam sem parar. Talvez, não lhes dessem comida, ou ainda tivessem de carregar pesadas pedras durante décadas, ou pior, deviam ser apedrejadas.

        O purgatório era escuro, sujo e assustador. Muito pior que uma floresta assombrada de um filme de terror. Eu tinha medo das almas penadas que moravam no purgatório. Com certeza, elas eram muito más, por isso estavam ali. Não sabia o que elas poderiam fazer comigo e isso me angustiava. Tudo que eu não queria era ir para o purgatório. Ficava imaginando o que eu deveria fazer para que meu elevador não parasse naquele malfadado andar.

         Graças a Deus a gente cresce e o purgatório desapareceu do meu horizonte. Nunca mais pensei nele até essa semana. Vendo tanto impunidade, tanta gente se dar bem praticando crimes aqui na terrinha, só mesmo um purgatório para dar conta de tanta alma penada. Imaginei um purgatório exclusivo para políticos e bandidos brasileiros. Podia até tocar um sambinha na escuridão, enquanto todos eles sofriam bastante. Não sou vingativa, mas, nesse caso, um pau de arara, invenção tão nacional, seria uma boa pedida para purgar tanta coisa errada.

         Como a eternidade é muito curta para dar conta de tanto pecado, o diabo se irritaria com a espera, subiria até o purgatório e levaria todos com ele.

           Adoro finais felizes.

 

                                        São Paulo, 20/10/2020

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