DE NOVO, JANEIRO

          Não é só porque é verão, tempo de férias e de tomar sorvete aos montes, gosto de janeiro porque é o começo de novo, uma chance a mais de recomeçar, de fazer dar certo o que nos incomoda, de mudar.

           Nada mais sensato do que o mês de janeiro se chamar assim em homenagem ao deus Jano, o deus das mudanças, o deus dos inícios, que tem dois rostos, um velho e um jovem, justamente porque é capaz de enxergar ao mesmo tempo o passado e o futuro. Adoro esse simbolismo.

          Mas, voltando a janeiro, ao contrário do resto da humanidade, não faço promessas de início de ano. Faço projetos variados. Alguns tão mirabolantes que passo dias fazendo seus planejamentos. E só isso já basta para me sentir motivada, revigorada, pronta para arregaçar as mangas e fazer dar certo.

         E aí você pergunta: mas dá certo? Por mais incrível que pareça, a grande maioria dá certo sim. Pode demorar um pouco mais do que o previsto, pode não sair exatamente como planejei, posso ter de fazer poucas ou muitas concessões, entretanto, acredito que o fundamental é fazer acontecer.

          Claro que há os projetos arquivados e que, durante muitos anos, me faziam sofrer. Um dia, meu filho me ensinou que quando insistimos em algo, insistimos, tentamos de verdade e, mesmo assim, o desejado não se realizou, é porque simplesmente não era pra ser. Cada vez acredito mais nessa teoria e, se ela não for verdadeira, não importa. Ela é ótima para apaziguar o coração.

          Agenda nova (em papel, obviamente. Nenhum meio digital vai me tirar o prazer de riscar a cada tarefa realizada) e começo a escrever, escrever, compulsivamente. Começo pelos aniversários que ocupam o ano todo, passo para os pagamentos que quase querem se estender para muitas outras agendas, depois marco tudo o que deve ser consertado, relógios, roupas, eletrodomésticos para, finalmente, marcar as etapas dos projetos. Ao cabo de algumas horas, a vida está prevista e a agenda com muitas páginas preenchidas.

          Olho as páginas em branco e me pergunto o que será que vai acontecer nesses dias. Escolho uma qualquer e escrevo Dia da Surpresa.  Planejar é ótimo, mas uma vida sem surpresas é um tédio. É janeiro, tudo está começando e as possibilidades são muitas. Sempre espero por uma grande onda que agite meu mar e, quiça, leve meu barco para uma praia paradisíaca completamente desconhecida.

          Que bom que é janeiro!! Leio em algum lugar que talvez a adoração ao deus Jano nunca tenha existido, mas resolvo não levar em consideração tal informação. Eu dedico meu janeiro a quem eu quiser e, se um deus dos inícios nunca existiu, está mais do que na hora de ser inventado.

                                                                                    São Paulo, 16/01/2018