DE OLHOS FECHADOS

          Costumo tomar banho de olhos fechados. Sei que é estranho, mas eu sou estranha. Uma estranheza a mais, outra a menos... Se meu marido vê, corre a acender a luz, como se não lhe ocorresse que a luz não apagou sozinha. Ele sabe. Mas também deve achar, ou pior, ter certeza de que é estranho. Talvez pense que se não acender a luz também será tachado de estranho.

          Minha amiga se surpreende com a minha revelação:

          – Deve ficar tudo sujo!! – comenta sem pensar.

        Como assim? Então pessoas com deficiência visual ficam sujas depois do banho? Óbvio que não. É um gosto. Um prazer enorme ficar de olhos fechados prestando atenção apenas na água quente que escorre pelo corpo. Ninguém precisa enxergar para passar o sabonete. Fecho os olhos e o cansaço do dia vai indo embora, bem devagar.

         Quando o trânsito está insuportável, tudo parado, também fecho os olhos. Nem que seja por apenas alguns segundos. Como no banho, é um momento de descanso. Eu comigo mesma. Às vezes, alguém buzina e eu descubro que fiquei mais tempo de olhos fechados do que deveria, mas, e daí? Atrasei dois segundos essa cidade maluca?! Grande coisa!

       Pode parecer bobagem, entretanto, essa pequena pausa, de olhos fechados, faz com que eu sinta que o trânsito não me venceu e que basta eu fechar os olhos para estar em qualquer lugar do planeta que eu desejar e não ali.

         No trabalho é difícil, sempre tem gente olhando e que não gosta de olhos fechados. O truque é colocar as mãos segurando na testa e abaixar a cabeça como se estivesse resolvendo um problema praticamente insolúvel. É o momento de fechar os olhos e lembrar que a vida é muito mais do que trabalho.

       Pálpebras são cortinas mágicas quando a luz incomoda, quando o medo assusta, quando a lágrima insiste, quando o cansaço bate. Parecem tão pequenas, mas tão absolutamente fantásticas. Mais um presente do Ser do andar de cima.

        Tenho certeza de que minhas pálpebras têm vida própria. Quantas vezes o senhor cérebro manda que elas fiquem abertas, mas ela nem ligam e fecham voluntariosas quando o chefe se distrai? Por vezes, piscam para mandar mensagens como se fosse um Código Morse ou ainda tremem de raiva. Cortinas frágeis?? Não. Pensando melhor, claro que não. São portas de aço inteligentes, imunes ao tempo e aos humores da vida porque, quando resolvem se fechar, são absolutamente intransponíveis.

                                                              São Paulo, 03/03/2020