DESENTENDIMENTO EM REDE

 

         

          Duas amigas de longa data, desde a infância, brigaram. O motivo? Uma postagem boba no whatsApp, um vídeo de um autor desconhecido como milhares que existem rodando por aí e que talvez não motivasse nem uma visualização, quanto mais uma briga. Mas assim aconteceu.

          As redes sociais, como o próprio nome indica, deveria ser algo bom que incrementasse a socialização entre as pessoas, principalmente, entre amigos. Entretanto, nem sempre é isso o que acontece. As pessoas têm brigado pelas redes sociais de uma maneira que eu não entendo muito bem. Dois ou três brigam e os outros ainda assistem de camarote.

        Em uma festa ou reunião, as pessoas expressam sua opinião sobre os mais variados assuntos. Nem sempre concordamos, mas, educadamente, respeitamos a opinião do outro. Afinal, onde está escrito que as pessoas têm de pensar tudo igual? Exato. Em lugar nenhum. E o simples fato de olharmos para a pessoa, de estarmos tão perto evita uma discussão que, provavelmente, não levaria mesmo a lugar algum. Pelas redes sociais não é assim. As pessoas ficam mais dispostas a brigar por seu ponto de vista e a não respeitar a opinião do outro. Afinal, no texto escrito cabe tudo, seja em papel ou em algum meio virtual. O olho no olho que poderia brecar uma frase mais ríspida ou estimular um deixa pra lá, não existe e as barreiras tendem a ser muito frágeis.

        Certa vez, assisti a uma palestra de uma psicóloga que disse, entre muitas outras coisas interessantes, uma que eu jamais esqueci. Às vezes, não entendemos a razão pela qual alguém fica bravo por coisas tão insignificantes, e a psicóloga explicou que todas as pessoas têm “nós emocionais”, situações doloridas que foram vivenciadas e não resolvidas que são de alguma forma relembradas ou acessadas por gatilhos que são os tais motivos fúteis que muitas vezes não identificamos. Mais ou menos como uma música que ao ouvi-la nos leva a relembrar uma situação. O grande problema é que no caso da música, temos consciência do momento a que ela nos remete, enquanto no caso dos nós emocionais, o gatilho e também a situação dolorida nem sempre são claros. Assim, o pior é que nem os interlocutores entendem e nem a própria pessoa como ela pode ter ficado tão brava por algo tão tolo.

         Já fui muito briguenta. Hoje não sou mais. Descobri, de muitas formas, que não vale a pena. Entre ter razão ou manter a amizade, sempre escolho a segunda alternativa. A razão não me faz dar risada, não me consola na dor, não me acarinha quando preciso tanto.

         Não posso ignorar duas amigas queridas e me intrometo na briga que não é minha. Peço para que a pessoa que se sentiu ofendida deixe pra lá. É uma bobagem, algo para relevar. A pessoa não me dá ouvidos. Expõe motivos que eu não entendo. E, como me ensinou minha mãe, quando alguém não lhe ouve, é melhor dar tempo ao tempo. Esperar que a raiva passe, porque ela sempre passa, e só então tentar de novo. Penso em postar essa crônica também pelas redes sociais. É bem provável que as duas leiam e, quem sabe, entendam o que eu quis dizer. Mas não me arrisco. Existe a possibilidade grande das duas se unirem para brigar comigo. E fico quieta. Não faço nada.

      E as redes, esse entrelaçado de fios invisíveis que se autodenominam sociais, ficam sem qualquer utilidade.

                                                               São Paulo, 17/10/2017

.