DIA DE MISSA

            Tudo começava pelo banho de banheira. Uma esponja esfregava tanto a pele que ficava até vermelha. O cabelo comprido tinha que lavar e enxaguar, lavar e enxaguar, lavar e enxaguar. Havia sempre uma ameaça no ar, não sei se real ou imaginária, de um piolho que algum filho de uma vizinha descuidada tinha pego. Para completar, uma escovinha se encarregava de tirar qualquer sujeirinha minúscula que ficasse nas unhas das mãos e dos pés cortadas bem rentes.

         Vestido branco com detalhes em renda impecavelmente limpo e passado. Meias soquetes também brancas em um sapato boneca de verniz preto tão brilhante que só de pensar nele meus olhos ainda se incomodam ou se alegram. Não sei bem direito. Para o cabelo, um rabo de cavalo com um delicado enfeite de florzinha para esconder o elástico e tão esticado que doía o couro cabeludo por horas, mesmo depois do tal rabo desfeito.

          Apesar de já se estar cheirando e muito a sabonete, era dia de perfume. Duas gotinhas atrás da orelha e uma em cada pulso. A pulseirinha de ouro com pequenas pérolas era permitida nesse dia, assim como a corrente com a cruz. Agora sim ela estava pronta.

          Onde essa menina ia? À missa.

      A missa era um acontecimento em minha casa. Não se podia ir à missa de qualquer maneira. Era banho demorado e roupa de festa. Quando eu ainda era bem pequena, também havia a mantilha branca para pôr na cabeça na hora da comunhão. Depois, a tal mantilha foi abandonada e só as beatas de preto a usavam. Lembro até de uma delicada luvinha branca, mas não consigo precisar na memória quando ela era usada, se toda missa ou em datas especiais. Sei que era motivo de admiração. Afinal, eram luvas como das atrizes de filmes antigos, ou, pelo menos, assim me pareciam.

          Esse foi um ritual dominical obedecido “religiosamente” durante toda a minha infância. Não achava ruim, pelo contrário, eu gostava. Gostava de olhar no espelho e me achar especial. Gostava de olhar para os meus irmãos e vê-los tão arrumados quanto eu. Todo mundo ficava mais bonito e eu me orgulhava. E só na adolescência fui me rebelar contra tudo isso. Durante um bom tempo, eu e a igreja ficamos brigadas. E só a moda dos movimentos de jovens conseguiu fazer as pazes entre nós.

          Hoje, entro na igreja de tênis e roupa de ginástica a qualquer hora, com missa ou sem missa. Não penso na roupa, só naquilo que de verdade importa. Mas, de vez em quando, sinto saudade dos rituais da minha infância. Eles foram marcas importantes e todas as marcas têm um significado maior do que o imaginado. Os rituais nos ensinam e dão solidez. Sinto que fazem falta. Ajudariam a fazer perseverar algo nesse tempo tão fugaz em que tudo é efêmero, tudo se esvai.

                                                           São Paulo, 06/03/2018