DIA OCO

 

          Tem dias que a crônica é um grande ponto de interrogação. São tantos assuntos possíveis, mas nenhum que me encante. Mais ou menos como uma criança mimada, dona de centenas de brinquedos, que olha em volta, mas nenhum lhe desperta o gosto pelo brincar. Nada cutuca mais fundo. Os fatos são chatos e os detalhes não aguentam nem um parágrafo, quanto mais uma página inteira.

          Até o comezinho, alimento do cronista, parece faltar na enorme dispensa. As prateleiras estão limpas. A geladeira virou um vácuo que lhe puxa para dentro e o inox do fogão brilha com o pouco uso. O cronista tem fome, mas ninguém liga. O ofício chama, mesmo de barriga vazia.

          Não adianta levantar panos ou fuçar em negras panelas, o assunto desapareceu, "escafudeu", fugiu. Nesses dias ocos, o melhor seria descansar à rede. Deixar que o balanço leve tomasse conta do tempo que ia passando devagar, devagar até acabar. Um novo dia pode sempre trazer um olhar diferente, uma comidinha caseira ou um banquete, quiça, uma esperança de escrita brilhante.

            Ah, a escrita... Por que alguém escreve mesmo quando não quer ou não consegue? Que maldita sina é essa?

        Leio os jornais, faço pesquisa na internet, puxo pela memória situações sobre as quais ainda não falei, mas nada. Não é só o dia que está oco, eu também estou.

          Os vinte e três simbolozinhos estão todos aqui sob meus dedos, mas a mágica não acontece. Já perdi a conta de quantas e quantas letras se arrumaram em um bailado desordenado quando já não havia mais qualquer esperança de organização. É essa esperança que me guia novamente. Raspo o oco buscando algum resto de palavra que sobrou do último texto. Uma expressão que foi rejeitada ontem pode ser crucial hoje.

          Tenho de admitir: também penso em lhe enganar. Um copia e cola de um autor desconhecido. Afinal, leitor não é professor, Não fará busca, desconfiado de plagio. Dificilmente serei descoberta e, no futuro, posso até acusar aquele que “me plagiou”. Varro a ideia desonesta para bem longe. Tenho medo dos deuses da escrita. Posso ser punida e meu cérebro virar oco para sempre.

          E assim vou elocubrando. O preto vai ocupando o branco e você, leitor tolinho, de uma forma ou de outra, vai sendo enganado. A crônica não disse nada. E a página já chegou ao fim. Respiro aliviada, até a próxima crônica.

 

                                                                       São Paulo, 26/02/2019