DIFÍCIL

        São cinco horas. As urnas em todo o país estão sendo lacradas.

        Nunca fui de sofrer por futebol, política ou por meu artista preferido. Não tenho esses arroubos e meu fanatismo é bem anêmico. Mas, desta vez, tudo foi diferente. Deixou de ser uma disputa política para ser moral. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo com as pessoas que eu conhecia, que eu amava. Foram dias difíceis. Dormi mal, vivi mal.

      Toda a minha leitura, meu trabalho, minhas obrigações ficaram em segundo plano. Era preciso convencer de que aquele era um caminho perigoso. Falei, discursei, discuti, briguei. Creio que de nada adiantou. A tempestade está armada e nenhum vendaval que a carregue parece estar a caminho.

      Vejo depoimentos de todos os expoentes que eu admiro. Eles estão comigo. Que bom que eles pensam como eu. Mas, nem isso faz com que as pessoas recuem, repensem. Preferem fazer campanha contra seu músico predileto, seu escritor predileto, seu educador predileto como se a obra de anos e tão importante desses expoentes não valessem mais nada. Não entendo.

       Somos ainda crianças nessa nossa jovem e frágil democracia. Vivendo e aprendendo. E eu aprendi muitas lições amargas nesse processo eleitoral. Algumas doídas demais e que deixaram marcas que eu não sei se poderão ser apagadas.

           Não importa o resultado, todos nós o respeitaremos. Para o bem ou para o mal. Assim deve ser a democracia. Assim é viver em sociedade, mesmo que a sociedade esteja tão doente e que o vil metal tenha se tornado mais importante do que uma vida. Mesmo...

        Chega. É hora de calar, de aquietar o coração. Agora essas letras nada mais significam. Elas não têm qualquer força. Não têm poder. Pobres letras.

         Só torço para que Deus esteja no comando maior e que ilumine os três poderes
        Volto à literatura... preciso urgentemente de uma dose maciça de encantamento.

 

                                                           São Paulo, 28/10/2018