DISCUSSÃO EDUCADA

 

          Entro em uma discussão em uma rede social. Não é uma discussão acalorada, estúpida. É do jeito que deveriam ser todas as discussões: polida, parecendo disposta a ouvir a opinião alheia. Entretanto, à medida que as conversas avançam, começo a crer que apenas parece disposta. Ninguém quer rever nem um milímetro sua opinião.

     Extremistas de um lado acusam os extremistas de outro lado. Ninguém consegue enxergar como as posturas são parecidas.

        Sou educadora há séculos, da época em que acreditávamos que educar não estava restrito a uma sala de aula. Educar está presente em todos os meus atos. Até mesmo quando os seres não querem ser educados e eu me torno uma intrometida, beeeem chata.

     E assim a educadora, sem pedir licença, entra em ação na tal discussão. Explico que já briguei muito, mas compreendi que não adianta nada deletar as pessoas das redes sociais, que falar apenas para a própria bolha não leva a avanço de ideias e, enfim, que é preciso ter paciência com quem pensa diferente. Afinal, ser democrático, liberal, é aceitar que todas as ideias possam ser expostas, o que não significa que devam ser aceitas.

        Quase posso ouvir o silêncio do outro lado do teclado. Será que estão refletindo sobre o que eu disse ou será que estão apenas escolhendo um palavrão qualquer para me xingar? A discussão se encerra. Eu fico lá esperando pelo próximo comentário, mas ele não vem. Não sei direito como interpretar tal coisa. Nem sei se é um bom ou mau sinal.

            Fico em compasso de espera, com dedos engatilhados, olhando aquela tela estática. Um, dois minutos. Reflito sozinha, sem “alunos” para me ajudar. É impressionante como as pessoas não estão preparadas para uma posição conciliadora, como estão apenas armadas para brigar. Há um ódio no ar e nas letras dos comentários. Ser razoável é quase como ser a estraga prazeres da brincadeira que não tem nenhuma graça.

            Não me lembro em toda minha vida de ter presenciado um momento como esse que estamos vivendo. Um povo desunido servindo de massa de manobra a políticos gananciosos de extremos estúpidos. E, se esses governantes dos três poderes não fazem movimentos para conciliar a nação, será que ninguém pensa que isso tem um propósito? A quem interessa que continuemos desunidos? Dividir para governar. O ditado mais antigo do mundo. Só que todo mundo esqueceu.

 

                                                           

                                                           São Paulo 17/09/2019