DOCE PRA QUE TE QUERO

 

          Outro dia, ouvi em um filme uma frase que quase retrata exatamente o que eu penso. O personagem, com um pote de sorvete na mão, dizia: doce é alimento, o resto é sobrevivência. Calma! Não fique bravo comigo, veja que eu disse “quase”, mas você, apressadinho, nem notou.

        Antes que você me julgue e diga que estou dando mau exemplo para as crianças e jovens que estão lendo essa crônica, saiba que sim. Eu como salada, como frutas, pouca fritura, pouco doce, pouco carboidrato e tudo o mais que os nutricionistas recomendam, já que meu objetivo é ultrapassar a marca dos noventa. Entretanto, isso não quer dizer que esse seja o meu gosto alimentar.

          Se pudesse, comeria chocolate aos montes, sorvete diariamente, e tudo que há de doce para se saborear. Claro que no meu cardápio também reinariam absolutos um enorme filé à parmegiana, uma lasanha, um strogonoff e assim por diante. Sou descendente de italianos pelos dois lados, pai e mãe, gosto de tudo que engorda e que alimenta a alma. O que tem a alma a ver com isso? Ora, acredito piamente que um pote enorme de mousse de chocolate ou um prato de brigadeiro melhora qualquer mau-humor, mesmo que todos os psicólogos do mundo digam que é apenas uma fuga.

          Fui gordinha quando era criança. Doce era recompensa e por isso sempre fui boazinha, isso se a sobremesa me apetecesse. Politicamente incorreto? Claro que sim. Mas a vida era assim, o mundo não tinha tanto policiamento e nossos pais faziam como aprenderam com nossos avós e nem por isso ninguém morreu. E cá estou, nem gorda nem magra. Normal e muito bem de saúde, obrigada.

          Tenho muita pena de quem não come carne, ou não come lactose, ou não come glúten ou não come isso ou aquilo. É tanta proibição que o prazer da mesa se esvai. Não há um equilíbrio. É um monte de radicalismo sem qualquer margem à tolerância. Claro que há problemas de saúde que proíbem determinados alimentos em doses elevadas, mas um pouquinho, de vez e quando, qual o problema?

          Repare nas pessoas radicais. Elas são absolutamente tristes, algumas são até chatas, creio que tudo por que elas se negam pequenos prazeres como se um único brigadeiro fosse levá-las à morte ou um pedacinho de carne fosse o causador de todos os males do universo.

          Lembro-me de uma vez, ainda adolescente, quando fui almoçar na casa de uma amiga descendente de libaneses. No almoço, foi servido um prato que eu não gosto nem um pouco até hoje: tabule. Por educação, comi. Por educação, a mãe de minha amiga perguntou se gostei e eu disse que sim e ela então fez questão que eu comesse mais um pouquinho. Eu poderia ter dito como os milhares de chatos que existem hoje em dia que eu não como tabule. Mas pra quê? Pra deixar tristes os meus anfitriões? Eu comi, não morri e todos na casa mencionaram como eu comia de tudo e como era bom ter uma convidada assim. Simples, né? Isso se chama convívio social do qual o alimento é um personagem importante. Não nem sempre é a melhor resposta

                                                           São Paulo, 28/08/2018