EDUCAÇÃO DE CONSUMO

 

          Faço compras, semanalmente, em um supermercado pertencente a uma grande rede, localizado em um shopping da cidade. Recentemente, tenho encontrado nessa loja, em meio a alfaces, latarias e produtos de limpeza, estudantes uniformizados de uma também grande rede de colégios fazendo compras para o lanche da manhã. Eles, ao contrário de milhões de jovens pelo mundo, não têm um privilégio absolutamente comum e necessário de respirar ar puro e estar ao ar livre durante o intervalo das aulas. Fico imaginando o que os pais desses jovens pensam a ponto de cometer o desatino de matricular seus filhos em uma escola dentro de um shopping.

          Qual será a vantagem? É mais fácil de estacionar? Ou será que é uma escolha completamente sem pensar? Parece moderno?

          O templo do consumo está a anos-luz de distância de ser um ambiente saudável para jovens estudarem. Jovens possuem energia sobrando e precisam extravasar. A hora do intervalo das aulas não pode ser também uma hora de compras passeando entre corredores de lojas. Deveria ser o momento do contato com o sol, do jogo de futebol, do vôlei, do pebolim, da roda de violão sentados na grama, da conversa embaixo da árvore.

          Às vezes, acredito que nunca se pensa em uma educação que seja integral no sentido de alcançar todas as facetas do ser humano. É consenso que o ensino deva ser de qualidade, o que significa aprofundamento, interdisciplinaridade, estabelecimento de relações entre os diversos saberes em seus diversos tempos, cobrança, questionamento... e por aí vai. Mas também não se pode esquecer da formação de valores, muito mais responsabilidade da família do que da escola e, completando essa tríade, o desenvolvimento físico.

          Há pais que não enxergam o quanto a atividade física é importante, não apenas para modelar o corpo, formar músculos, mas, principalmente, para sociabilidade, formação de equipe, lidar com vitórias e derrotas públicas e claras, bem como o ambiente agradável em que tudo isso deva acontecer.

          Sou contra escolas em shopping-centers, em prédios sem jardim e quadras, mesmo que o discurso seja de tecnologia. Criança e adolescente necessitam de espaços abertos. Já basta o apartamento apertado, a faculdade em prédio, o escritório em baias. Haverá muito tempo para se enclausurar um indivíduo, não é preciso antecipar nada, principalmente, na fase mais importante da vida, que é sua formação como pessoa.

          Moderno não é escola em shopping, é pensar fora da caixinha e não se deixar levar pelo mais fácil e cômodo. É perceber quando o discurso da instituição de ensino é apenas de consumo e não tem nenhuma preocupação com a educação. É não desprezar nenhum, absolutamente nenhum aspecto que trará qualidade e bem-estar à pessoa que, por acaso, pode ser seu filho.

                                                                                  São Paulo, 12/03/2018