EM UM LEILÃO

      Sou velha o suficiente para saber que existem muitos mundos dentro desse mundo, mas, muitas vezes, é realmente surpreendente perceber esses mundos desconhecidos.

        Estou em um leilão. Particularmente, gosto de leilão. Há uma adrenalina pairando no ar, mesmo para aqueles como eu que são meros espectadores. Lance de lá, lance de cá. Uma luta sem espadas cercada de exclamações de admiração à medida que os lances sobem, sobem, sobem e a disputa se acirra. A plateia se vira para um lado e para o outro esperando o próximo golpe. Até que um dos lados se cala e dá-lhe uma, dá-lhe duas, dá-lhe três e o leiloeiro bate o martelo.

        Não vou comprar nada. Principalmente, porque é um leilão de gado. Não tenho nem uma chácara, quanto mais uma fazenda com cabeças de gado. O que estou fazendo então em um leilão? Ora, que cabecinha pequena, meu caro leitor!! Não há nada mais interessante que adentrar um mundo que não é o seu. Nem que seja pela comida. Sim, a comida é farta e muito boa em um leilão de gado. Porém, não é ela o que mais me atrai. Gosto de gente. Gente que tem outros hábitos, outros gostos, outros horizontes.

       Sair da bolha é uma aventura para quem sabe aproveitar sem preconceito. Indubitavelmente (adoro essa palavra!) aprendo. Minhas verdades se alargam e abraçam o que eu nem sabia que existia. Muito além do chapéu estiloso e da calça jeans segura pelo largo cinto com fivela chamativa, enxergo um evento sério preparado com esmero. Os touros desfilam pelo picadeiro de grama, elevado como um palco, com o público em volta. O apresentador, um especialista de carcaças, portes e andares bovinos, vai falando ao microfone as qualidades do animal que parece saber que ele é uma grande estrela. Às vezes, gosta tanto do espetáculo que o vaqueiro tem dificuldade de tirá-lo de lá para dar vez ao próximo touro. Disputa de estrelas!

         Setecentos quilos, oitocentos quilos e a plateia bate palmas. Eu não tinha até ali qualquer noção de quanto deveria pesar um bom touro, mas agora já sei. Como aprendi também a observar o cupim em cima do lombo, o andar e por aí vai. Provavelmente, não usarei esses conhecimentos para nada. Quando muito em uma conversa de bar em que eu possa mostrar o quanto sou entendida, mesmo não sendo. Mas, mesmo que seja assim, valeu. Valeu ver a satisfação daquelas pessoas pelo reconhecimento de seus cuidados com os animais ao longo de vários anos, Valeu as conversas instrutivas e as risadas gostosas às custas da minha ignorância bovina. Valeu a possibilidade de ser humilde em um cenário desconhecido. Valeu, enfim, por essa crônica.

 

                                               São Paulo, 16/07/2019.