ENGASGO

            De vez em quando, engasgo. Comendo? Nada disso. Engasgo na vida.

           Olho em volta e tudo está estagnado. Sonho com um maremoto. Uma onda enorme que me arranque do chão junto com mesas, cadeiras, papeis, e me faça nadar para longe com braçadas largas e mude tudo de lugar. Água, muita água para desengasgar.

          Canso de rotina, adoro rotina. Calma, não é um caso de bipolaridade. Só acredito que rotina é bom até a página dois, mas depois de um tempo a rotina tem de ser alterada porque ela é como a moldura de um quadro, limita a visão, emoldura os sonhos. Não é possível escapar para fora da paisagem colada à parede.

         Prisões modernas não possuem grades. Há uma mesa, um computador, e inúmeros boletos a se pagar que nos mantém grudados a cubículos onde falta ar, apesar do aparelho de ar condicionado funcionar a todo vapor. Entre um café morno e outro, engasgo.

          O minúsculo relógio na tela diz que o mundo gira, mas eu nem percebo. Asfixio e ninguém por perto para aplicar a manobra de Heimlich, ante palmas dos observadores aflitos, como nos filmes. Acho que todos engasgam, mas só eu percebo.

            Alguém diz que devo agradecer e eu não entendo bem. Tempos difíceis todos lembram. Dar graças pelos parcos reais, afinal, são reais, vieram de algum rei, benesses a simples súditos que trabalham em dobro ou triplo, agradecidos. Olho o rei e não vejo qualquer realeza ou algo parecido. Pareço ingrata? Não. Li A Roupa Nova do Rei.

          Tomo uma água. O copo é pequeno. Não faz qualquer maremoto, nem na alma. Depois do último gole, pequeno gole, respiro fundo. O engasgo parece amenizar. Olho em volta e nada, absolutamente nada mudou. Sento resignada em meu lugar determinado. Tento, sem muito sucesso, acomodar minhas longas pernas no pequeno espaço embaixo da mesa. Volto a digitar estranhos textos e números sem sentido. Até o próximo engasgo.

                                                           São Paulo, 31/10/2019