ENTRE UNHAS E CABELOS

 

                Um dia, ainda vou escrever um livro inteiro sobre histórias de um salão de beleza. Fico impressionada como um ambiente pode ser tão rico em casos inusitados e também como as pessoas que o frequentam gostam de contar seus “causos”. Vão falando sem qualquer censura, como se estivessem no confessionário protegidas pelo segredo da confissão. Mas, cá pra nós, duvido que um cabeleireiro ou uma manicure siga as regras do confessionário. Isso, sem falar nos outros clientes que ficam de ouvido em pé.

            O salão é um dos poucos lugares em que eu mais escuto do que falo (sei que é difícil de acreditar, mas é verdade!). Até lamento não ter vários ouvidos para ouvir todas as conversas que acontecem simultaneamente. Fico perdida, sem saber qual escolher para seguir.

          Como as mulheres abundam no ambiente, são em número muito superior ao dos homens, é comum ouvir histórias de maridos, sogras e crianças. Apesar da grande maioria das mulheres que frequentam o salão hoje em dia trabalharem fora, as conversas ainda giram sobre a família e o universo feminino do tempo da minha avó. Talvez seja por isso que me encante. O comezinho é sempre um prato cheio para a crônica.

          Há, claro, aquelas clientes que trocam receitas de doces e salgados, dicas de limpeza, telefone de boas diaristas, recomendações de escolas para crianças, e por aí vai. Mas, de verdade, o que eu mais gosto são as longas histórias da vida alheia. De preferência, histórias picantes cheias de detalhes.              Como o salão que eu costumo frequentar não é um salão chique dos jardins, mas um salão de bairro, é comum as pessoas se conhecerem ou pelo menos saberem de quem se está falando. O que também me espanta.

          Sem qualquer cerimônia, fico sabendo que a vizinha com cara de anjo tem dois amantes. Um pra cada dia da semana e o marido nem desconfia, Por outro lado, há o marido de uma também cliente que, obviamente não está presente, já andou com meio bairro e a tal esposa ainda é uma Amélia do século XXI que faz questão de fazer todos os afazeres domésticos, sozinha, sem deixar que o seu Don Juan se canse com nada.

          Há a típica sogra dos filmes que boicota a nora. Enquanto faz a unha, vai contando para o salão inteiro ouvir que a casa do filho é uma imundície. Fico pensando se o filhinho da mamãe não pode ajudar na limpeza e penso até em me meter e perguntar, mas a matriarca não quer ser contestada. Só quer ouvidos que se indignem junto com ela sobre a tal nora. E a manicure balança a cabeça solidária.

          O melhor dos casos eu ouvi há muito tempo atrás. Era sobre duas grandes amigas. Conhecidas desde a infância, as moças não sabiam que eram irmãs por parte de pai. A mãe de uma das moças havia morrido há pouco tempo, e a amiga dessa mãe contava ao cabeleireiro o segredo e perguntava se devia contar ou não para as moças.

          O cabeleireiro, mestre em penteados, mas longe de ser um psicólogo, não sabia o que dizer. Como aconselhar alguém a mudar o rumo da vida de outras pessoas? Eu ouvi tudo na cadeira ao lado e um pouco indignada não consegui ficar quieta. Disse que um segredo que foi para o túmulo não deveria estar passeando em um cabeleireiro. A mulher me olhou fundo e suspirou. Pensei que fosse brigar comigo, mas apenas disse:

          - Você tem toda razão. Às vezes, esquecemos que não estamos na igreja, mas no cabeleireiro.

          Assunto encerrado...até o próximo penteado.

                                                                               São Paulo, 08/05/2018