ERA UM DOMINGÃO

 

         Se você acha que todos os domingos são iguais, devo lhe avisar que você está redondamente enganado. Há domingos e há um domingão.  É isso mesmo. Nenhum domingo se compara ao primeiro domingo depois do ano novo, em pleno verão brasileiro, na praia. Parece que as pessoas endoidecem com esse dia e querem viver o oposto do que Jesus deu o exemplo. Era para descansar não era?

       Ao meu lado, em uma daquelas barracas enormes onde cabem vinte pessoas, todos falam alto demais, bebem demais e ouvem música de gosto duvidoso. Aqui cabe um parêntese: não é só a música, tem algo de gosto mais duvidoso do que essas barracas? Antigamente, as praias eram lindas com seus guarda-sóis coloridos, mas agora, há essas barracas que se acham donas da areia e esticam aquelas cordinhas que ultrapassam seus limites e onde as pessoas costumam tropeçar e se machucar. Tem seres que se acham chiques com as tais barracas e mandam seus caseiros logo cedo abri-las para garantir lugar. Tem algo menos chique do que isso? Cidadania é chique. Barraca lotação é um horror. Dinheiro e bom gosto não são sinônimos. Nunca foi, eu sei.

          E as geladeiras? À minha frente, senta um homem grande, bem grande, com uma geladeira enorme com rodinhas. Imagino que vá chegar uma família ou um grupo de amigos gigantesco para dar conta de toda bebida que aquela geladeira deve guardar. Mas não. As horas passam e aquele ser enorme bebe sozinho, uma lata depois da outra. Não sei se tenho dó ou passo o telefone dos vigilantes do peso. Não faço nada. Não tenho nada a ver com isso. Sou só uma observadora do inexplicável.

        Praia lotada e um grupo de amigos resolve jogar futebol em um espaço de dois por dois, bem atrás de mim. A bola pica e cai aos meus pés trazendo um monte de areia. Um dos rapazes pega a bola e pede desculpas. Eu desculpo. Sou educada. Continuam jogando sem se importar se há gente em volta e a redonda pica de novo e bate em minhas costas. Já não é só a areia, minhas costas doem. Seguro a bola lamentando não ter uma tesoura na bolsa de praia e olho para o rapaz. Desta vez, não me desculpo e o meu olhar, com certeza, o desanima porque ele leva o seu grupo para mais longe. Vão infernizar outras pessoas mais pra frente. Não há espaço para futebol, mas é um domingão, o primeiro do ano e o futebol faz parte, eles acreditam.

         Futebol, frescobol, corrida, castelos e mais castelos de areia, barracas que deviam estar em um camping, sorveteiros, vendedores de óculos, bijuterias, queijinho, camarão e tudo o mais que o valha e gente, muita gente. Desisto de tentar relaxar na areia. Vou ao mar. Procuro por um buraquinho onde eu possa só boiar por uns trinta segundos. Não peço muito.

        E lá estou eu, de olhos fechados, boiando sobre o mar e achando que a vida pode ser muito boa, quando sou atropelada por um caiaque. As crianças que o dirigem nem percebem. Estão brincando e gritando. Olho em volta. Não há o que fazer. A água está tão congestionada quanto a areia. Desisto. É o domingão. O primeiro do ano.  Jesus devia ter uma rede no meio do mato.

                                                           São Sebastião, 10/01/2018