EXTREMOS

          Eram tempos difíceis, de fome e frio. Os irmãos Pedro e Paulo estavam cansados de passar tanta privação. No começo, pensaram em trabalhar juntos, unindo forças para superar o momento difícil, mas que, com certeza, iria passar. Entretanto, à medida que a fome aumentava, Pedro e Paulo desistiram rapidamente do plano inicial e começaram a brigar. Quanto mais brigavam, menos conseguiam superar as dificuldades. Não apenas ficaram sozinhos em seus trabalhos, mas passaram a detonar o trabalho um do outro.

      Os irmãos, antes tão calmos e afetuosos, passaram a ser agressivos e violentos. Cada um, a seu modo, achava que tinha a solução para tanto sofrimento. Pedro dizia que a única opção era roubar a feira e matar o feirante que, na sua opinião, praticava preços abusivos. Paulo dizia que a única opção era matar as pessoas que frequentavam a feira porque aí iria sobrar alimento e o preço iria cair.

           Afinal, quem deveria morrer? O feirante ou os compradores? A cada dia, eles iam ficando mais irascíveis. Não importa para que lado a balança pendesse, haveria morte.

          Sou contra qualquer tipo de radicalismo. Pra direita, pra esquerda, pra cima pra baixo, pro branco ou pro preto, muito doce ou muito azedo. Gosto de estar no meio. Não precisa ser exatamente no meio, pode ser um pouco mais pra cá, ou pra lá. De algum lugar que eu possa enxergar as pontas e consiga me movimentar ao sabor do vento e das minhas crenças como pessoa.

         Os extremos me amedrontam justamente porque estão cegos para a outra ponta, não importa se ela tenha algo a ser considerado. Estar no meio não é ser bege, é conseguir enxergar o que cada lado tem de bom e de ruim. Aproveitar o que há de melhor e desprezar o que não presta.

          Estar no meio significa poder avançar ou retroceder sem riscos. Nas pontas, as pontes ruíram. Foram encobertas pela ignorância que não é um xingamento, mas que, literalmente, só significa ignorar o que há do outro lado.

          E o fim da história de Pedro e Paulo? Não sei. Ainda não foi escrita. O lápis está com você.

                                                           São Paulo, 18/09/2018