FOLHAS DO TEMPO

  

           Inesperadamente, depois de sumir por muitos anos da minha vista e da minha vida, eis que ganho, no final do ano, uma folhinha calendário. Aquelas de dependurar na parede da cozinha, lembra?

          Meu primeiro estranhamento acontece por ver algo há tanto tempo esquecido. Achava que elas nem eram mais produzidas Depois me pergunto: por que uma loja dá de presente uma folhinha enorme, em papel, em plena era da internet? A resposta vem a galope quando vejo o velhinho proprietário por trás da caixa registradora. Entendo tudo. Certas coisas são mesmo difíceis de mudar.

         Não sei bem o que fazer com ela. Não combina com a minha cozinha como combinava com a cozinha na casa de minha mãe. Vamos ser sinceros... ficou estranho. É antiga demais.

             Por outro lado, a tal folhinha me traz muitas lembranças. Riscar os dias que faltavam para o meu aniversário, para as férias, para o dia da criança... O prazer de arrancar uma folha com o mês inteiro concluído, dia após dia com direito a “X”. O tempo parecia que andava mais devagar pela folhinha da cozinha.

          E as paisagens? Em fevereiro, estávamos no carnaval do Rio de Janeiro, em junho, aos pés do Monte Fuji coberto de neve no Japão. Em setembro, a primavera era comprovada pelos jardins de flores de qualquer lugar da Europa. Eram belas paisagens, apesar de parecerem um pouco artificiais.

         Houve uma época, talvez até alguns anos, que a tal folhinha na minha casa era de seicho no ie, a filosofia de origem japonesa, e trazia, a cada dia, uma mensagem diferente, mas sempre otimista. Etelvina, que não sabia ler, era quem ganhava a folhinha, colocava na cozinha e pedia para qualquer um ler o que estava escrito. A gente lia e ela pensava. Às vezes, repetia, como se quisesse memorizar. Não era um tempo qualquer, era um tempo de otimismo.

        Em outro ano, alguém teve a infeliz ideia de marcar, além dos aniversários, também as mortes. Pra quê? Não me pergunte. Com certeza, há prazer na morbidez ou então não haveria público para filmes de terror.

       A folhinha também tinha outras utilidades. Entre elas, o teste da miopia. Eu explico. Toda vez que alguém achava que não estava enxergando direito, púnhamos uma cadeira a certa distância da folhinha e todos tentávamos ler algo. Sem qualquer critério médico, determinávamos quem devia ou não devia usar óculos.

        A folhinha, mais do que marcar dias, marcou um tempo feliz. Não consigo jogar fora. Quem sabe arrume para ela um lugar na lavanderia e, quando ninguém estiver olhando, de caneta em punho, vou derrotando o tempo ou, talvez, sendo derrotado por ele.

                                                                         São Paulo, 08/01/2019