FRIO, MUITO FRIO

           Sim, eu sei. Está frio, muito frio.

      Apesar das malhas, casaco de veludo e cachecol, meus ombros se recusam a relaxar. O frio os endurece como se fossem dois blocos de cimento e, no final do dia, eles doem muito.

         As extremidades são as mais atingidas. Não sinto direito os pés. É como se eles tivessem se desgarrado do corpo. Fico imaginando que são icebergs que, a qualquer momento, vão se quebrar e, tal e qual as geleiras derretidas da Antártida, nunca mais vão se reconstituir.

         Sonho acordada com praias tropicais, biquínis, calções e um infinito céu azul. Mas, nesse momento, meu céu é cinza, uma garoa fina insiste em cair de forma ininterrupta como uma irritante torneira quebrada, o que torna o frio ainda mais insuportável.

        Uma amiga, só pra me irritar, diz que adora o frio. Cita os famosos lugares-comuns do chocolate quente, uma tarde inteira de tevê embaixo das cobertas, lareira e uma taça de vinho, dormir agarradinho... Como o frio me deixa mal-humorada, lembro a ela que o chocolate quente acaba rapidinho, tarde inteira de tevê só quando tínhamos dez anos e não tínhamos que trabalhar, não se tem lareira em São Paulo, e dormir agarradinho é utopia de adolescente, já que todo mundo sabe que tentar dormir abraçado com alguém é uma luta inglória, já perdida nos primeiros cinco minutos.

        O pior momento do inverno, com certeza, é a hora do banho. Fecho todo o banheiro, ligo o chuveiro na temperatura máxima e só quando o vapor embaça todos os espelhos e quase não me permite enxergar nada, me animo a tirar a roupa. Animar não é bem o verbo mais apropriado. O certo seria ganhar coragem e só Deus sabe o quanto eu sou covarde frente a um frio. Nesse momento, entendo perfeitamente os europeus e acho que tomar banho todo dia é mesmo uma forma de masoquismo.

       Confiro a previsão do tempo. E, de forma absurda, até sinto uma alegria estúpida em ver as temperaturas de apenas um dígito estampadas no meu aplicativo. Calma, não sou louca. Apenas, como todo mundo, vivo uma relação estranha e contraditória com o inverno. Ao mesmo tempo que detesto sentir frio, o desafio de vivenciar uma temperatura bem baixa, rara em um país como o nosso, não deixa de me provocar.

         E assim, de casaco em casaco, vou enfrentando o frio. Não consigo deixar de pensar que afinal, o que seria de nós se, em pleno inverno, não pudéssemos reclamar do frio? Brrrrrr                             

                                                                         SP 06/08/2019