GESTÃO DE FELICIDADE

          Promessas de ano novo. Vou emagrecer, fazer mais exercício, escrever mais, ler todos os autores que ainda não li. São boas promessas, sem dúvida. Mas quero mais: vou sorrir mais, vou brincar mais, vou amar mais. O mais que sempre fica para depois, para o outro dia, outro ano, para outra vida que não existe.

          É impressionante como nessa hora de balanço, o prato sempre pende para o mundo das obrigações e o da felicidade fica no ar, tão leve de tão vazio. E é um repetir sem fim, ano após ano, dessa pesagem desigual, infeliz, teimosa...

          O que fazemos com nossa vida? Por que enxergamos tão curto? Por que agimos tão displicentemente com aquilo que nos é mais caro e fundamental? Vou sim amarrar cordões vermelhos nos dedos para me lembrar de ser feliz, vou sim colocar “post-its” pela casa com sentimentos a trazer à tona e não com tarefas, vou sim escrever em cada página da minha agenda ao final do dia o que eu fiz por mim ou por quem amo e se nada houver sido feito, vou reescrever a promessa no dia seguinte e não no ano seguinte.

          Com a idade, tenho cada vez mais presente a certeza da finitude do tempo, do meu tempo. Não me importo de partir. Um dia todos irão, mas não aceito partir em vão.

        Tenho certeza de que você, leitor, está apenas pensando que se trata de promessas vazias de um mês de janeiro, as quais se repetem ano após ano e que, em breve, a rotina vai me atropelar como um carro desenfreado e que eu não me lembrarei mais dessas bobagens prometidas. Não. Não são bobagens. Não permitirei que caiam no vácuo. Vou fazer diferente. Vou aplicar todo o meu conhecimento de planejamento estratégico, tão caro ao mundo empresarial, à minha vida. Vou ser a chefe mais exigente: exigir cumprimentos de metas de felicidade, horários fixos de prazer, tarefas diárias de bem-querer. Ser uma gestora de sucesso servindo a mim mesma.

        Agora tenho de parar de escrever. O alarme do celular tocou. Alguma reunião? Alguma tarefa importantíssima? Não. Só tocou para me lembrar que é hora da pausa para o café, trocar ideias com meus colegas, ouvir e contar histórias divertidas. O trabalho pode esperar alguns caros e preciosos minutos. Preciosos pra quem? Pra mim.

                                   São Paulo, 21/01/2020