INTERVIDA

 

          Vire e mexe, me pego pensando o que seria do mundo sem a internet. Não adianta lembrar que antigamente não existia e nós sobrevivíamos mesmo assim. É óbvio que sim. Mas, nas últimas décadas, a vida em torno do planeta foi organizada tendo a internet e suas facilidades como premissa. Nossa vida foi, não apenas facilitada, mas modificada e aproximada com a grande rede.

           Hoje, mantenho contato imediato com pessoas que não via há anos. Claro que algumas, continuo não vendo, mas sei o que estão fazendo, do que gostam e, mesmo longe fisicamente, consigo me sentir próxima. Com os colegas de trabalho locados em outros espaços, mesma ou diferente cidade, é possível trocar informações, dividir tarefas, congregar esforços.

         Atualmente, faço inúmeras consultas ao professor Google que jamais dorme ou descansa. E nem reclama da minha ignorância. Nenhuma dúvida fica para mais tarde. Desde saber a idade do meu artista preferido ou até mesmo odiado, até onde fica tal cidade, o restaurante de comida theca, a massagista ayurvérdica ou se há água em Saturno. São dados e mais dados sem fim, que nem muitas existências dariam conta.

        Com a internet, nunca mais fui ao banco, quando muito uma caixinha eletrônica em qualquer posto de gasolina ou supermercado. As enormes filas de bancos e o estresse do tempo perdido sumiram do radar. Ainda bem. Agora, o banco vem até mim a qualquer hora em qualquer lugar. Por outro lado, também não tenho mais desculpas se deixei de pagar um boleto ou fazer uma transferência. Foi desorganização sim. Fazer o quê?

             As compras então se tornaram uma experiência muito diferente do habitual. Antes de comprar qualquer coisa de valor, e sem gastar sola de sapato, pesquiso preços em dezenas de lojas. Vejo os produtos de todos os ângulos, mudo suas cores e, se não for suficiente, ainda mando minhas dúvidas para serem respondidas por algum vendedor. Lojas espalhadas pelo Brasil todo e muitas vezes até pelo mundo. Não há mais limite para o que posso desejar. Quem sabe experimentar aquele chá estranho do Paquistão ou se agasalhar com um legítimo casaco de pelo de lhama vindo dos Andes. É fácil. Basta ter o dinheiro. Infelizmente, esse detalhe a internet ainda não resolveu a meu contento.

              Até namorado é possível encontrar pela rede. Pessoas que talvez o destino jamais as apresentasse, agora se unem para todo o sempre amém e depois, ainda dividem o dia a dia conjugal pela rede que transforma o privado em público tão rapidamente.

          Por fim, a internet possibilitou artistas de exporem sua arte, professores de ajudar milhares de alunos com suas aulas, e aspirantes a escritores, como eu, de publicar sem uma editora. Sem internet, você talvez nunca lesse essa crônica e nós ficaríamos sem pensar e repensar o quanto foi bom a "intervida" ter nascido.

                                                       São Paulo, 19/02/2019