LAMA

          Não conheço Brumadinho, mas o nome sempre me foi extremamente simpático. Associo com a palavra engomadinho, que por sua vez me remete a uma camisa branca, limpa, bem engomada para ficar com a gola durinha.

               Penso na camisa branca e na lama. Em toda aquela lama. Penso em quem vestia branco, amarelo, azul, vermelho ou até mesmo marrom. Penso nas primeiras lamas manchando a cor, e as últimas lamas levando embora os sonhos, os sorrisos, o amor de tanta gente.

              De arrebate. Um mar de lama entrando pela roupa limpa, pelo nariz, pela boca e com sua fúria jogando ao chão. Lama que sela olhos. Eu sei, é doído imaginar, mas só nos colocando no lugar de quem morreu em Mariana ou Brumadinho para não aceitar esse crime nunca mais. Imagino um desespero imensamente maior do que de um afogado. Já quase me afoguei em água por duas vezes e, apesar das décadas, não consigo esquecer a sensação. Mesmo assim, não sou capaz de mensurar o que deva ser afogar-se em lama.

                Dinheiro. Dinheiro. É só dinheiro. Como dorme um político que flexibiliza as leis? Como dorme um fiscal que aceita suborno e dá laudos falsos? Como dorme um diretor de empresa que está muito mais preocupado com os lucros do que com as vidas humanas e o meio ambiente? Se fosse eu, acho que não conseguiria dormir jamais.

            Não entendo. Não sou engenheira. Mas se a barragem de Bromadinho era considerada de baixo risco, então está tudo errado. Se uma barragem de lama ou terra não segura os rejeitos, não deveriam construir represas com muito ferro e concreto, uma estrutura que não se rompesse?? Sai mais caro? Claro que sim. E daí? O lucro vai ser menor? Que todo lucro vá para o inferno porque nem todo o dinheiro do mundo vale uma vida humana.

                Quanto custa uma criança? O marido, mãe ou noiva de alguém? Um amigo?

               Sinto uma enorme desesperança. O mal venceu mais uma batalha. Apesar de todo o desenvolvimento, a sociedade ainda não entendeu que o dinheiro não pode comandar ou acabar com nossas vidas.

                                                              São Paulo, 29/01/2019