LIÇÕES DE UMA CAVERNA

 

          Fico imaginando o exato momento em que os dois primeiros mergulhadores chegaram ao local na caverna onde os meninos tailandeses estavam. Fico imaginando a alegria dos meninos, do treinador e também, claro, dos mergulhadores que estavam, há horas, buscando no escuro por garotos que poderiam estar mortos. Tenho certeza de que, naquele instante, ninguém se importou com a nacionalidade dos mergulhadores ou dos meninos. Tenho certeza de que ninguém se lembrou de perguntar qual era a religião, gênero, preferência sexual, classe social ou partido político, simplesmente porque nada disso importava. Eram todos somente seres humanos.

         Então por que, no dia a dia, essas questões menores são tão importantes? O que eu tenho a ver com o fato de meu vizinho preferir amar um homem ou uma mulher ou rezar para um deus que não é o meu? Nada. Exatamente, nada!  O ser humano é mais do que isso. A divindade está em nós e foi isso que essa gigantesca rede social que orou e se mobilizou para salvar aqueles meninos demonstrou. A caverna extraiu a essência e mostrou que a humanidade pode ser o que quiser, inclusive, ótimos seres humanos capazes de se doarem por desconhecidos.

                 E se um mergulhador arrisca a própria vida por um desconhecido e não desiste apesar do cansaço de horas procurando sem nada encontrar, quem somos nós para brigar em tão poucos minutos com um conhecido porque ele imagina que um partido político seja melhor do que o nosso. Ceder a vez na política não deveria ser nunca um problema. O ideal seria mesmo que os partidos se revezassem nos governos para que possíveis erros não se perpetuassem. Não há sentido em querer fazer valer sempre a nossa posição. Foi um trabalho de equipe que funcionou na Tailândia e que costuma funcionar em qualquer lugar do mundo, em qualquer situação e isso significa silenciar o ego para ouvir a posição do outro.

             Ninguém vale mais porque é homem ou mulher. Ninguém vale menos porque tem menos dinheiro. Dinheiro é uma invenção para separar a humanidade em classes que se odeiam há séculos e, mesmo com tanto estudo, o sistema de castas se perpetua. Ninguém questiona a real necessidade do dinheiro até reparar que ter ou não ter não faz a menor diferença em uma caverna, como não deveria fazer em qualquer lugar do universo. A ínfima minoria que detém a maior parte do dinheiro do mundo poderia resolver a miséria humana se quisesse. Era só querer como os milhares de voluntários quiseram trazer de volta aqueles meninos.

          A fotografia mostrou para quem soube enxergar. Era uma longa caverna escura sem qualquer luz no fundo do túnel, mas, mesmo assim, o ser humano acreditou. Está na hora de entrarmos todos na mesma caverna para sairmos renovados. Ainda há tempo! É só uma questão de fé!

                                  

                                                           São Paulo, 10/07/2018