LOUCURA DE ESCRITOR

          O que você faz quando está bravo, feliz, emocionado, arrasado?

          Come? Briga? Dá risada? Chora? Eu escrevo.

         Fico imaginando o que seria de mim se não escrevesse. Talvez já tivesse ficado maluca, dessas de colocar em camisa de força e trancafiar em hospício, ou, talvez pior, já tivesse deixado louco quem convive comigo.

       A escrita é a minha terapia. Não preciso escrever sobre meus sentimentos tão, tão...complexos(para dizer pouco!). Eles estão ali bem escondidos embaixo da história do gato e do cachorro, da crônica de duas vizinhas que espionam o marido de uma terceira, da peça de teatro que se passa na idade média.

          Você, leitor, lê e nem percebe que é meu terapeuta. E o melhor, não lhe pago um tostão por isso. Claro que tenho um pouco de vergonha de explorá-lo assim, tão na cara dura, mas você parece não ligar pra isso(tem uns tão loucos quanto eu que parecem até se divertir) e minha culpa vai para o espaço.

        Às vezes, lhe chamo de João, outras vezes de Maria, agora, se o momento for cabeludo, você rapidinho virá Zebedeu ou Defuntina, os meus preferidos. Você nem imagina o quanto brigo com você enquanto escrevo. Dá até orgulho! Nem Rocky Balboa levaria tanta pancada e ainda sairia andando do ringue.

          O que eu mais gosto é como você é compreensivo. Jamais se zanga e nem me responde. Com toda paciência do mundo, vai ouvindo o meu rosário fantasiado de tudo quanto é gênero textual e, se sou prolixa ou medíocre na ideia, você ainda finge que não vê. Mais competente que Freud!!

         Um dia, juro que ainda vou lhe retribuir tanta delicadeza. Até já sei o que vou fazer. Vou escrever um romance enorme, desses de mais de quinhentas páginas que dá uma preguiça enorme de ler, quanto mais de escrever. Mas o sacrifício por você valerá a pena. No romance, a narradora (eu, claro!) só vai se ferrar do começo ao fim e todos os outros personagens vão se dar muito bem. Já sabendo que a obra é em sua homenagem, pode escolher qualquer personagem que lhe apetecer e tenha a certeza que pensei em você quando o criei.

        Se precisar, posso até me matar. Narradores que morrem sempre dão ibope. A história triste, dessas de chorar três dias, vai atrair muito mais leitores que ficarão com dó dessa narradora infeliz e pronto, a armadilha funcionou. Que armadilha? Como novos leitores ainda terão muito que apanhar, eu sigo na terapia, enquanto você, leitor amigo, saboreia a sua aguardada vingança até, claro, eu renascer na próxima crônica.

 

                                                           São Paulo, 03/07/2018