MATURIDADE PROFISSIONAL

          Quem é gestor em educação há muitos anos como eu, já deveria ter se acostumado, mas todo final de semestre, além das alegrias de ver nossos alunos formados, metas alcançadas, etc e tal, há também um momento difícil que se repete semestre a semestre e, sobre o qual ninguém fala, que são as demissões. O mercado educacional é bastante sazonal em questões de emprego. O semestre termina e é hora de avaliar quem fica e quem não fica para o próximo. A conhecida dança das cadeiras.

          Há alguns anos, quando ainda era diretora de cursos de comunicação, depois de observar um docente por vários meses e vê-lo lendo inúmeros livros ao invés de dar aula, depois de ter conversado, aconselhado, e feito tudo ao meu alcance para que ele entendesse que ler era ótimo, mas não era essa a função para a qual ele havia sido contratado, resolvi que não havia mais o que fazer e o mandei embora. Na hora da demissão, sabedora do seu amor pelos livros arrisquei:

          - Fulano, vá ser escritor. Você não é um professor.

         Ele ouviu, sorriu e não nos vimos mais por muito tempo. Um dia, leio que ele havia lançado um livro por uma grande editora. Depois, leio que ele ganhou um prêmio importante e, aos poucos, fui vendo sua carreira literária se consolidando.

          Anos mais tarde, estou na Livraria da Vila em São Paulo, quando o vejo folheando um livro. Fico sem saber se devo me aproximar ou não. Não mantivemos contato e não posso esquecer e, provavelmente, nem ele, que fui eu que o demiti. Resolvo arriscar. Chego perto com uma pergunta ensaiada:

         - Oi, fulano. Como você está? Ainda bravo comigo por tê-lo mandado embora?

        Ele levanta os olhos do livro que tinha nas mãos, sorri e me abraça. Depois, olhando fundo nos meus olhos me diz:

          - Muito pelo contrário. Sempre me lembro de que foi você que deu o pontapé inicial na minha carreira de escritor. Você me obrigou a ter coragem de me aventurar na literatura. Sou muito grato a você.

     Meu coração também se encheu de gratidão por aquela fala. Semestralmente, mandamos pessoas embora que têm contas para pagar, que precisam daquele emprego, mas que, no fundo sabem que não conseguiram entregar o que se esperava delas, apesar de inúmeros feed-backs apontando a necessidade de mudanças que muitas vezes não ocorrem e geram a demissão. Ser gestora é acompanhar, orientar, propor novos caminhos, mas, às vezes, também é mandar embora, pois há pessoas maravilhosas em postos que não são adequados aos seus perfis.

        Perdi a conta de quantos subordinados tive de demitir ao longo do meu percurso em educação. Claro que não gostaria de ter demitido nenhum, entretanto, aprendi com o tempo que mandamos embora (e somos mandados embora) não porque um profissional é desqualificado, mas, simplesmente, porque ele não atende as necessidades daquele cargo, naquele momento, para aquela empresa. É só isso. Não é pessoal. Que bom que a maturidade profissional nos permite enxergar sem mágoas ou culpas, mesmo que continue sendo um momento difícil.

                                                                       São Paulo, 31/12/2019