MULHERES DE 60 

          A jornalista Glória Maria tem 68 anos. Eliane Catanhêde, 65 e Mônica Waldvogel, 62. Essa lista não se esgota apenas nesses três nomes. São muitas as mulheres jornalistas que são “idosas” e continuam brilhando. A maior empresa de comunicação do país, a Rede Globo, ao contrário da grande maioria das empresas brasileiras, entende que conhecimento e experiência não são adquiridos aos trinta anos, como pensam erradamente alguns executivos. Isso pra não falar da questão do gênero.

         Apesar da atual longevidade ser uma verdade incontestável, o mercado de trabalho brasileiro ainda não entendeu e nem tirou vantagem dos novos tempos. Uma mulher com mais de 50 anos, além de ser uma profissional muito mais experiente, com qualificação provavelmente acima da média, pois teve mais tempo para estudar e se aperfeiçoar, ainda terá a vantagem de já ter criados os filhos e poder se dedicar muito mais à carreira, não terá problemas de TPM, nem estará sujeita a tantas variáveis que a juventude nos impõe.

      Uma amiga, que construiu sua carreira nos Estados Unidos, pediu demissão aos 59 anos de uma empresa multinacional onde já trabalhava há mais de dez anos. Ficou receosa que talvez não se recolocasse rapidamente em virtude da idade. Preconceito de brasileira. Em duas semanas, já havia recebido duas propostas excelentes, melhores do que seu antigo emprego, e pode optar pela melhor.

          Outro dia, em meu linkedin, vi um executivo se vangloriar porque havia contratado um funcionário com mais de quarenta anos. O quê?? Eu tive de rir sozinha. Como assim? O exemplo acima demonstra bem o preconceito embutido até mesmo naqueles que se “arriscam” a contratar um profissional "mais velho". Eu sei que há exceções e jovens brilhantes, mas se fosse decidir apenas pela média, eu jamais contrataria um funcionário para qualquer cargo de alta gestão que tivesse menos de quarenta anos. Gerir pessoas é uma arte que só o tempo nos ensina. A pouca experiência e o poder são ingredientes que juntos não costumam dar uma boa receita.

          Culturas europeias, americanas, asiáticas há muito tempo reverenciam a experiência que só se adquire com a idade, mas, aqui no Brasil, nossos melhores profissionais são apartados do mercado. É uma pena que tanto conhecimento, tanta possibilidade de fazer o melhor por uma empresa seja menosprezada.

     Gostaria que muitos executivos que estão lendo agora esse artigo respondessem com sinceridade se são realmente mais cultos e competentes do que apenas as três mulheres que foram citadas no início. Que bom que não é preciso responder em voz alta. Pois então...elas não são exceção. Hoje em dia, é muito fácil encontrar mulheres como elas em todas as áreas.

        Desde 2006, empresas francesas com mais de cinquenta funcionários adotam o recrutamento por currículo cego, ou seja, sem informação de gênero ou idade. Essa é uma prática saudável que se alastra por vários países e deveria ser adotada em todos os departamentos de recursos humanos brasileiros. Deixem que os candidatos com os melhores currículos se apresentem, falem de si e depois decidam se a idade é tão determinante assim. Qualquer dúvida, liguem na Globo.

                                                              São Paulo, 10/04/2018