MUSEU NACIONAL

 

          Apesar de vivermos tão longe, eu ouvi seus gritos. No começo da noite, um domingo preguiçoso e eu, ainda um pouco sonolenta, não entendi direito de onde vinha aquele som pedindo socorro. Deve ter sido horrível. Imagino a dor de se sentir queimado. Creio não haver morte pior.

       Mesmo doente há tanto tempo, tenho certeza de que você lutou bravamente. Fechou seus braços para evitar que o fogo levasse consigo o que lhe era tão caro. Você sabia como tinha sido difícil o caminho até ali. Memória não se compra em loja, história para se fazer, não para se perder.

          Luzia, sua filha mais célebre, era a primogênita das Américas. Lembro bem quando ficou famosa. Era até um pouco tímida, afinal, tinha estado quietinha em Minas Gerais por mais de onze mil anos. Sei que você chorou ao vê-la desaparecer frente ao fogo ganancioso que não poupa nem velhinhas comportadas como Luzia, que nunca fizeram mal a ninguém.

         O pobre Maxakalisaurus topai já havia sobrevivido a um ataque de cupins no ano passado, mas nem o mais forte e valente dinossauro de treze metros de comprimento enfrenta um fogo fechado entre quatro paredes. Deveria ter ficado na Serra da Boa Vista, onde acreditou que podia enxergar ao longe, onde ainda estaria vivo para o futuro.

        E a raríssima Sha-amun-em-su  em seu caixão? Veio de tão longe, do distante Egito para morar no Rio de Janeiro, imaginando que talvez perto da praia e longe do deserto, água é que não iria faltar. Mas faltou. Não havia água para o fogo beber e desaparecer. A cantora e sacerdotisa Sha-amun-em-su com mais de 2800 anos se foi. Parece que o brasileiro não trata muito bem os seus hóspedes. E morro de vergonha só de imaginar o que deve estar pensando agora seus parentes nas margens do Nilo.

         Nossos indígenas já estão acostumados a sofrer, mas você os protegia. Afinal, alguém achou que seus trajes, seus objetos seculares, a sua história, a nossa história, enfim, estariam melhor guardadas sob o olhar do homem branco do que em suas terras, suas reservas tão ameaçadas. Ledo engano. Provavelmente, nesse momento, alguém chamado político deve estar pensando que eram apenas bobagens indígenas.

           Perdão! Sinto muito por não ter conseguido lhe socorrer.

       Você gritou. A cada livro, a cada inseto raro, a cada pesquisa perdida, a cada... você gritou. Vinte milhões de vezes você gritou de dor. Eu ouvi. O Brasil ouviu. Tarde demais!

 

                                                           São Paulo, 04/09/2018