NÁUFRAGO

 

          Meu amigo, eu não lhe reconheço. Parece mesmo aqueles casos de novela em que a pessoa foi trocada por outra, normalmente, claro, muito pior. Eu olho pra você e tento encontrar aquela pessoa que eu conheci há tantos anos, mas nem o cabelo é o mesmo.

          Fixo nos olhos em busca de tudo aquilo que me encantava em você, mas, se dizem que o olhar não muda nem em outra encarnação, o seu mudou nessa mesma. Até seu olhar perdeu o brilho. Está opaco. Não reflete nada a não ser seu novíssimo jeito de existir que tanto me desagrada.

         Recordo de conselhos que me eram dados quando ainda adolescente. Aquela coisa de plantar para poder colher. Minha vó dizia: quem planta arroz não colhe feijão. A natureza não se altera. Você mudou de colheita no meio do caminho, não deu certo, parou de plantar e, com certeza, agora se arrepende e culpa o mundo por isso. Nem se importou quando a fome bateu à sua porta.

Eu te olho e me entristeço. Não era pra ser assim.

         Minha lembrança é de sua risada, de sua inteligência vivaz, de sua calma em resolver o que pedia pressa. Você era o capitão do barco. Agora, é apenas um náufrago navegando de favor em um barco que lhe socorreu. Quero gritar para que tenha coragem, há terra vista só é preciso nadar. Mas me calo frente ao seu medo quase palpável. Abandonar o barco, só se for em terra firme, você pensa. Mas existe mesmo uma terra que seja firme?

            Olho a foto antiga. O sonho ainda estava lá. Foi fotografado junto lhe abraçando e lhe fazendo promessas nas quais você não acreditou. Nunca havia lhe visto tão feliz. Nunca vou entender o porquê.

          Acabo o meu café, guardo a foto na memória e esboço um meio sorriso. Silencio as palavras que brotam muito além da boca. Está na hora de ir. Não há mais nada que eu possa fazer.

 

                                                                       São Paulo, 23/01/2018