NO VÁCUO

          Quando eu era criança, lavar roupa era quase um ritual de tão complicado. Claro que já existia a máquina de lavar! Não sou tão velha, leitor ingrato! Mas as roupas finas não iam para a máquina. As mulheres da época, excelentes donas de casa, diziam que estragava e talvez estragasse mesmo porque não havia máquinas com ciclos diferentes de lavagem como hoje em dia e, por isso, a ordem era lavar na mão.

          As roupas brancas também não eram lavadas à maquina. Eram essas as que davam mais trabalho. Claro que elas tinham de ser lavadas separadamente com medo de que pudessem manchar. Entretanto, era preciso esfregar no tanque porque se dizia que só no tanque para tirar direito a sujeira de uma peça branca. Depois, elas ainda eram fervidas em um tacho bem grande, que existia e ocupava um espaço enorme na lavanderia só pra esse finalidade, e por fim, quarar.

          Quem põe roupa para quarar hoje em dia? Aposto que ninguém com menos de trinta anos saiba sequer do que se trata. Vou explicar. Etelvina é que fazia isso lá em casa. Ela punha folhas de jornal no chão do quintal, onde estivesse batendo sol, e colocava as roupas sobre o jornal bem esticadinhas. Isso mesmo. Por alguma mágica que eu não consigo entender, a roupa lavada e, portanto, molhada, não pegava a tinta do jornal.

       Depois de horas no sol, a roupa ficava sem nenhuma mancha e tão branca que quase doía os olhos. Aí, era lavada novamente e somente depois disso é que ia para o varal.

          Achou que acabava por aí? Não, não, não. Passar roupa também não era pra qualquer amadora. Estranhou o feminino? Ora, não sejamos tolinhos! Estamos falando da década de 60 quando homem não colocava os pés em uma lavanderia. Talvez imaginasse que esse cômodo da casa era um buraco negro e que se ele se descuidasse seria sugado para todo o sempre.

          O ferro, pesadíssimo, obviamente, não tinha vapor. As mais modernas tinha um pequeno borrifador para jogar água, mas, o mais comum, era mesmo um paninho úmido para passar na roupa e depois, aí sim tirar os riscos que porventura existissem, com o ferro deslizando de lá pra cá e de cá pra lá até o braço ficar doendo. Era a musculação da época e não precisava nem ir à academia.

         Havia uma coisa chamada goma que era preparada com água e com cuidado para encontrar o ponto certo. Se fosse goma demais deixava a roupa dura e se fosse de menos, não adiantava nada. A goma, que existe até hoje no supermercado para os saudosistas, era pra deixar as golas e os pulsos das camisas do homem, as toalhas de linho ou de renda e toda roupa que fosse cheia de salamaleques bem armadinha. Pra quê? Ora! Não me faça perguntas difíceis.

          Acho que sou moderníssima, mas, mesmo assim, ainda esfrego algumas manchinhas no tanque. Atualmente, isso é passado. A roupa vai para a máquina e pronto. Se não sair limpa como deveria, azar o dela. Passar? Passar pra quê? E o amarrotado já não causa tanto estranhamento, quer dizer, nos outros, porque eu, por mais moderna que seja, ainda acho bem esquisito. Fico então no meio do caminho, perdida no vácuo entre o século XX e o XXI.

                                                           São Paulo, 14/08/2018