O CIRCO

          Quando era criança, o passeio mais legal do mundo era ir ao circo. Havia uma magia indescritível naquele espaço de chão de terra sob a lona amarela, tão diferente de todas as casas e prédios que eu estava acostumada.

          A arquibancada era de bancos duros, mas isso é algo que eu só fui reparar agora, enquanto alimento as lembranças para escrever a crônica. Isso nunca foi importante e continua não sendo. Era na arquibancada que tinha a moça com a caixa de madeira pendurada ao pescoço com doces coloridos de todos os tamanhos. Era a arquibancada o lugar do cachorro quente, da pipoca, da espera ansiosa para o espetáculo começar. E, quando a música de abertura tocava, não existia mais qualquer arquibancada. Todas nós, crianças, estávamos sentadas em nuvens macias que nos elevavam às alturas.

          O mestre de cerimônias, de roupa dourada e cartola, misto de mágico e autoridade, anunciava:

          - Respeitável, público....

          Lembro que nesse momento batíamos palmas apressadas e ríamos sem poder conter tanta felicidade. E então, o sonho começava.

          Os palhaços abriam o espetáculo e, ao longo do show, iriam entrar várias vezes, no picadeiro costurando os números, dando tempo para trapezistas, mágicos, contorcionistas, treinadores e seus animais e tantos outros artistas se prepararem. De novo, só sei disso agora. Naquela época, ficava imensamente feliz com tanta palhaçada. Cada vez que um palhaço aprontava alguma, as risadas invadiam meu mundo e o meu coração só pedia mais.

          Os trapezistas, um homem e uma mulher, ambos de maiôs colantes com estrelas brilhantes bordadas, eram de longe os mais elegantes. Como desejávamos ter uma roupa como aquela e só ficávamos olhando admiradas enquanto eles subiam, subiam lá no alto do trapézio. Mas admiração mesmo era quando, depois de balançar de ponta cabeça de lá pra cá e de cá pra lá arrancando suspiros, eles ainda saltavam para o vazio com a certeza de que o outro iria alcançá-lo. Nosso coração também quase saltava do peito. Lindo de ver! Medo e admiração convivendo pacificamente.

          A contorcionista devia ser de borracha para caber naquela caixa tão pequena e o mágico tinha algo de bruxo, afinal, como o coelho aparecia do nada assim na nossa frente? Ou como sua assistente, ao contrário, ficava em dois pedaços depois de ter sido serrada sem dó?

          Em um tempo em que ainda não existia o politicamente correto, havia cachorros adestrados fazendo peripécias incríveis, leões pulando em banquinhos como se fossem gatinhos e os mais incríveis elefantes se comportando com toda graça e leveza levando seu domador para passear. Anos mais tarde, como jornalista, fiz uma grande reportagem sobre o circo e passei um dia inteiro com a caravana e lembro de nunca ter visto animais tão bem cuidados e recebendo tanto carinho. Estavam melhor ali do que em apartamentos minúsculos, ou em qualquer zoológico.

          Procuro um circo pela cidade. Aquele circo que eu suspeito que já não exista. E constato que não há mesmo pessoas dispostas a ganhar pouco, viajar muito e levar uma vida de privações só para levar alegria a crianças como um dia nós fomos. Enquanto o circo morre sem ajuda, milhões de reais que deviam preservar e incentivar a cultura nacional vão para produções internacionais. O Brasil é mesmo incompreensível!!

 

                                               São Paulo, 25 de setembro de 2018.