OS PATOS E AS RAPOSAS

          O pato olhou para a raposa e quis reclamar, mas enxergou as unhas afiadas, as pernas ágeis e o olhar safado da criatura e mudou de ideia. Era melhor ficar quieto. Estava cansado de sofrer as consequências, ano após ano, mas sabia que jamais daria conta de enfrentar sozinho a astuta raposa. Precisava bolar uma estratégia, apesar de não ser considerado o animal mais inteligente do reino. Mas talvez, por isso mesmo, a malfeitora baixasse a guarda achando que um pato não ofereceria qualquer perigo.

          Enquanto trabalhava noite e dia para pagar as joias, os carros, a mansão e mais o que a dona raposa desejasse, o pato não parava de pensar. Tinha de haver uma saída. Não podia aceitar que, desde que a floresta é floresta, raposas roubam e patos, bem... pagam o pato.

          Apelou pra Deus, encomendou missa, culto, fez até despacho e nada. As raposas brotavam mais e mais a cada dia. Até parecia coelho. Será que elas haviam roubado a fórmula mágica dos coelhos também? Nem o céu era o limite para a ambição de certas raposas.

          Por fim, o pato, que era mesmo devagar, pensou que talvez se convocasse todos os outros patos... Era como diz o ditado: Uma andorinha só não faz verão. E assim foi feito. No domingo, milhares de patos se reuniram na lagoa. Alguns traziam faixas, outros se vestiam com as cores da floresta. Grasnaram, grasnaram até ficarem roucos. As raposas riram. Era até engraçado ver tanto pato junto.

          Quando já estava abatido de tão desanimado e não conseguia elaborar nenhum plano para acabar com os roubos das raposas, o pato ouviu falar de uma coruja que trabalhava quietinha lá no sul. Ela tinha escutado o grasnar dos patos. Daqui e dali, começaram a chegar notícias de que alguma raposa havia caído na armadilha da coruja e, finalmente, havia sido presa. Mas, esperança de pobre, quer dizer, de pato dura pouco. Lá vinha outra raposa e soltava a raposa presa. Parecia não haver fim. Até os altos conselhos do reino animal eram simpáticos às raposas ou tinham medo delas. O pato não sabia o porquê. Afinal, ele era apenas um pato.

          A coruja havia conseguido deter algumas raposas e ainda devolver aos patos o que elas haviam roubado. Era pouco, praticamente uma gota no oceano, mas já era um começo e, em muito tempo, era a primeira vez que os patos tinham alguma esperança.

          Claro que as raposas e os amigos das raposas ficaram alvoroçados. Choveu estilingada para atingir a coruja que resistiu bravamente e continuou no seu galho. Coruja é um animal muito esperto e mora onde tem de morar.

          Agora, todos os patos estavam na expectativa. Os verdadeiros “donos” da floresta tinham de optar em ter uma terra mais justa ou fechar os olhos e deixar que as raposas acabassem de vez com a mata. Talvez estivesse na hora de os patos irem novamente até a lagoa central grasnar. Milhões de patos, mesmo que só patos, deviam ter alguma voz. Outras corujam poderiam escutar. Sem perceber, o pato tinha criado a melhor estratégia.

                                                                                                              São Paulo, 12/09/2017